quarta-feira, 30 de abril de 2008

Borrego assado no forno com tomilho e vinho da Madeira

Gosto muito de carne de borrego, mas como já aqui referi, esta carne é muito especial e quando não é de boa qualidade não se consegue disfarçar. Notoriamente, nos pratos de borrego a qualidade faz a diferença. Eu prefiro comprar carne de borrego nacional, da região do Alentejo ou do Ribatejo.

O borrego é uma carne versátil, fica bem em sopa, num guisado, cozido, assado na brasa ou no forno, até já vi, no programa O Sentido do Gosto de José Bento dos Santos (que eu adoro!) fazer um presunto de perna de borrego.


Ingredientes
Carne de borrego (usei metade de uma mão de borrego cortada às fatias)
3 dentes de alho
pimenta preta em grão
Sal
2 colheres de sopa de polpa de tomate
Azeite
Tomilho fresco
1 dl de vinho da Madeira
Água
Batatas

Antes de começar a preparar o prato, liguei o forno.

Fiz uma pasta no almofariz com os alhos, a pimenta e o sal. Esfreguei a carne com este tempero. De seguida coloquei a carne num tabuleiro de barro que vai ao forno. Dispus, em volta da carne, batatas novas descascadas.

Adicionei ao preparado duas colheres de sopa de polpa de tomate. Dispus o tomilho. Reguei com o vinho da Madeira e um pouco de água (meio decilitro).

Levei ao forno para assar. A meio da cozedura virei a carne, para dourar de ambos os lados.

Foi a primeira vez que usei vinho da Madeira num prato. Ficou uma delícia. Acompanhei o borrego com ervilhas cozidas, apenas com uma pitada de sal.

Quando cozo ervilhas deixo a panela destapada, assim as ervilhas ficam muito verdes. Lindas.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Carpaccio de laranja com calda de anis

Na revista Saberes & Sabores deste mês, foi publicada uma receita que me chamou logo a atenção. A receita é Carpaccio de Laranja com calda de Anis. Pelos ingredientes e pela imagem, ficou logo na lista das receitas a confeccionar brevemente. Este brevemente tomou forma no passado domingo.



Ingredientes:
15g de amêndoa em fatias
50g de açúcar
4 estrelas de anis
15g de margarina
água
2 laranjas
1 colher de sopa de mel
pimenta preta moída na hora
folhas de hortelã fresca

1. Alourar a amêndoa numa frigideira anti-aderente em lume brando. Retirar as amêndoas e reservar.

2. No mesmo recipiente, colocar o açúcar, as estrelas de anis e a margarina. Borrifar com um pouco de água até molhar o açúcar. Levar a lume brando até ficar em ponto de caramelo claro.

3. Descascar as laranjas ao vivo e cortá-las em rodelas finas. Colocar as rodelas de laranja num prato fundo. Aproveitar todo o sumo que largarem e juntar ao caramelo.

4. Juntar o mel ao caramelo, sempre em lume brando, e deixar que se dissolva completamente no preparado. Se for necessário pode-se acrescentar um pouco de sumo de laranja, caso a calda esteja a ficar demasiado espessa

5. Deitar a calda sobre as laranjas e deixar arrefecer.

6. Servir as laranjas com um pouco de pimenta moída na altura, com folhas de hortelã picadas e amêndoas tostadas.


Este carpaccio foi servido como sobremesa no almoço de domingo. Uma delícia. Mas não é que me esqueci de colocar a pimenta, uma falha que achei imperdoável, logo eu que adoro pimenta.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Ervilhas ...


domingo, 27 de abril de 2008

Fruta Flambé

Ontem assisti à confecção de fruta flambé. Os ingredientes usados foram: manteiga, açúcar, sumo de laranja, sumo de limão e rum. A fruta foi servida com amêndoa picada e crocante.

Fruta a cozinhar na calda de acúcar, manteiga e os sumos de laranja e limão.


O rum, depois de colocado a arder.

Este foi o resultado final, que eu degustei.

Esta é uma sobremesa rápida, a que o rum dá um toque muito especial. Um destes dias hei-de experimentar fazer e acompanhar com gelado. Não deve ficar mal.

Casamento

O casamento do meu primo Gonçalo foi ontem. Ainda me lembro dele pequenino e de caracóis loirinhos.

Foi da família o bebé de quem eu mais cuidei e brinquei. Costumava ir brincar com ele para a salinha da minha tia onde estavam uns sofás praticamente novos. Não é que o safadinho, começou a dar dentadinhas nos rebordos dos sofás, nas zonas mais duras onde se apoia os braços, para aliviar a dor do crescimento dos dentes. É daquelas situações que não lembra a ninguém, mas que têm um piadão.

Já um pouco mais crescidos, lembro-me de como nós gostávamos de lanchar ovos estrelados com pãozinho para molhar na gema. Boas recordações.

Os casamentos, para além de permitirem que uma pessoa coma e beba muito mais do que é devido, também permitem o convívio e o reencontro com pessoas que já não vemos há imenso tempo. Esta é uma das partes mais giras. Reencontrei pessoas que já não via há uns dez anos. Algumas até tive dificuldade em reconhecer. Em dez anos mudamos muito. Mas em poucos minutos de conversa queremos logo saber o que aconteceu neste entre tempo. Se casaram, se têm filhos, o que fazem, se engordaram ou emagreceram, se estão na mesma, etc. E o mesmo se aplica a mim, claro!

Associado ao casamento está a boda, e esta foi no restaurante Moinho de Vento, em Almeirim. Aqui ficam algumas imagens que registam um pouco da festa:


Taça Lua de Mel. Delicioso. Gostava de saber como se faz o molho de amêndoa que cobre o gelado.













sexta-feira, 25 de abril de 2008

Doce de papaia com queijo de cabra

Hoje é dia 25 de Abril. Este dia, para nós portugueses, é uma data histórica. Em 1974, no dia 25 de Abril, abriu-se o caminho para a liberdade. Já imaginaram um país onde era proibido usar biquíni, beber Coca-Cola, o divórcio, usar isqueiro sem licença, ler certos livros, os jornais, as revistas, as editoras e alguns filmes estavam sujeitos à censura. Era assim em Portugal há 34 anos.

Não me envolvi nas comemorações. Realmente nunca o faço. Hoje foi um dia que se passou, na maior parte do tempo, em casa, o que por si só não é mau. Acabou por ser mais um feriado.

O almoço não foi de festa, mas a sobremesa prometeu. Tinha cá em casa duas papaias muito madurinhas que era necessário aproveitar. Lembrei-me de uma sobremesa que foi publicada há já uns anos, se não me engano na revista do jornal Expresso, que recortei e guardei num livro de receitas.


Ingredientes:
1/2 Kg de papaia descascada e cortada em tiras fininhas
1/2 Kg de açúcar amarelo
1/2 L de água
Casca de 1 limão
1 pau de canela

1. Levar a água ao lume com o açúcar até fazer uma calda.

2. Adicionar a papaia, a casca de limão e o pau de canela.

3. Depois da papaia cozida, retirar a casca de limão e o pau de canela. Triturar e deixar acabar de apurar.

4. Servir o doce de papaia já frio com queijo de cabra.


Foi a primeira vez que fiz doce de papaia e, muito sinceramente, não me lembro se já tinha comido ou não. Achei muito bom. Fez-me lembrar o doce de abóbora.


Servi o doce com queijo de cabra curado. Uma delícia. O sabor forte e intenso do queijo contrasta de forma irresistível com o doce. Se fizerem, de certeza que vão repetir a sobremesa, tal como eu fiz.

P.S. Sobre o que era poibido no Estado Novo, aconselho o livro de António Costa Santos, Proibido!, Edições Guerra e Paz.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Esparguete com pimento vermelho, rúcula e queijo parmesão


Na sexta-feira passada recebi um convite para ir jantar a um restaurante japonês no Saldanha. Como poderia recusar? Disse logo que sim. O ponto de encontro ficou marcado para a Livraria Almedina no Atrium Saldanha, o primeiro a chegar esperava. Calhou-me a mim esperar.

Entrar em livrarias é sempre uma tentação. Assim que entro numa, vejo o que está em exposição nas novidades, de seguida passo para a ficção e depois paro na secção de gastronomia.

Comparando a secção de gastronomia das nossas livrarias, com livrarias noutras capitais da Europa e não só, temos muito pouco. Na Almedina existem duas prateleiras e pequenas com livros de culinária. Acho tão pouco.

Uma vez na livraria, escolhi dois livros da secção de culinária e sentei-me numa das mesas com vista para a Avenida Fontes Pereira de Melo. Os livros escolhidos foram Do Mercado para a sua Mesa de Joanne Harris e Na cozinha sem Alergias de Alice Sherwood. Neste último vi uma receita que me chamou a atenção. Não tomei nota, mas do que li ficou na minha memória os seguintes ingredientes: esparguete, pimento vermelho, rúcula e queijo parmesão. Esta combinação parecia-me muito interessante.


No domingo, não estive cá com meias medidas e experimentei fazer a receita.

Cozi esparguete, em água temperada com um fio de azeite e sal.

Numa frigideira coloquei um pouco de azeite. Piquei finamente três bons dentes de alho. Levei ao lume e deixei frigir um pouco, mas cuidado para o alho não queimar. De seguida juntei um pimento vermelho pequeno picadinho e deixei cozinhar. De seguida juntei rúcula fresca e mexi.

Por fim, envolvi o esparguete cozido no preparado anterior. Polvilhei com queijo parmesão acabado de ralar e rectifiquei o sal.

Assim que acabei de cozinhar este prato, seguiu logo para a mesa. Uma delícia.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Dourada com legumes no forno


Adoro peixe. Gosto de peixe seja assado, cozido ou até mesmo frito. Como já aqui tinha referido, no fim-de-semana passado, fui às compras à praça e não resisti às bancadas de peixe fresco. No saco trouxe Douradas para o almoço de domingo.

Ingredientes
2 Douradas
Sal e pimenta
1 colher de sopa de ervas picadas (salsa, tomilho, estragão)
Margarina para untar a forma
2 cebolas cortadas em rodelas finas
4 batatas cortadas em fatias finas
300 g de espinafres branqueados (usei duas embalagens de folhas de espinafres frescas)
2 cenouras cortadas em rodelas finas
2 dentes de alho picados finamente
100 ml de azeite
3 a 4 tomates descascados e cortados em cubos
1/8 L de vinho branco

1. Lavar as douradas e secar o excesso de água.

2. Fazer dois cortes em cada um dos lados da dourada.

3. Esfregar o peixe, por dentro e por fora, com sal, pimenta e as ervas picadas. Deixar repousar durante 15 minutos.

4. Untar um tabuleiro de forno (pirex, por exemplo) com margarina. Forrá-la com as cebolas e as batatas. Espalhar os espinafres por cima e por fim, as rodelas de cenoura. Polvilhar com alho. Dispor o peixe por cima dos legumes. Regar com azeite.

5. Forrar a forma com papel de alumínio. Levar ao forno, previamente aquecido a 200º C durante 15 minutos.
6. Retirar do forno. Remover o papel de alumínio. Adicionar os tomates e regar com o vinho branco.

7. Levar ao forno, sem o papel de alumínio, para acabar de cozinhar.

Esta receita é da região da Catalunha, Espanha. As ervas dão um sabor muito especial ao peixe.


P.S. Receita do livro de Marion Trutter, Culinária Espanha - Especialidades Espanholas, Ed. Culinaria Konemann, 2001.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Sopa de agrião

Apesar de estarmos na Primavera, estes últimos dias, parecem que ainda estamos no Inverno. Chuva e mais chuva. E frio.

Apetecia-me mudar o guarda-roupa, vestir roupa mais leve e colorida. Ir às compras. Sou daquelas pessoas que se sente influenciada pelo tempo. Adoro os dias de sol.

No Inverno sinto-me sempre um pouco mais encolhida. Gosto dos dias chuvosos quando posso ficar em casa a apreciar a chuva a cair, mas a grande maioria das vezes não é assim.

No sábado fiz uma sopa que soube muito bem quentinha. Fui às compras de manhã à Praça (Mercado). Ir à Praça é algo que adoro e que nos últimos tempos não tenho feito. Os legumes são sempre mais frescos e apetitosos.


Ingredientes:
1 pé de porco
2 cabeças de cravinho
2 folhas de louro
sal e pimenta em grão
2 cebolas
1 cabeça de nabo
2 courgetes
3 cenouras grandes
1 ramo de agriões
1 cenoura
Azeite

1. Cozer o pé de porco com 2 folhas de louro, 2 cravinhos, sal, pimenta preta em grão e uma cebola pequena.

2. Numa panela colocar 1 cebola grande picada. Regar com azeite e levar ao lume para cozinhar.

3. De seguida juntar a cabeça de nabo, as courgetes, as cenouras, tudo cortado em pequenos cubos.

4. Adicionar o caldo de cozedura do pé de porco, previamente coado. Deixar cozer os legumes.

5. Depois dos legumes cozidos, triturar com a ajuda de varinha mágica.

6. Adicionar um ramo de agriões frescos, previamente arranjados e uma cenoura cortada em pequenos cubos. Deixar acabar de cozinhar.

domingo, 20 de abril de 2008

Revista Única

Esta semana, a revista Única do jornal Expresso é, em grande parte, dedicada à gastronomia. No entanto, apesar de o Expresso desafiar três figuras públicas a prepararem um jantar na cozinha de Victor Sobral, de entrevistar David Muñoz - chefe revelação 2007, de comparar, numa reportagem, o restaurante Stop (restaurante familiar e popular) e o elegante e sofisticado Eleven, de apresentar a Roda dos alimentos e dicas de especialistas, de apresentar Tóquio, como a capital da gastronomia, de identificar a gastronomia em algumas obras de pintura, cinema e literatura, falar de Adegas de Arquitecto, de nos apresentar vinhos, restaurantes, dietas alternativas, entre outros aspectos, ficou aquém da minha expectativa assim que abri a revista.

A revista Única "esqueceu-se" dos blogues dedicados à gastronomia. Na minha opinião, ficou incompleta!

Batatas assadas no forno com ervas e alecrim


Para o almoço de ontem resolvi fazer peixe e como acompanhamento fiz batatas assadas no forno. As batatas que usei são batatas novas pequeninas.

Coloquei as batatas num pirex. Coloquei numa taça sal, salsa e coentros picados, um pouco de colorau e azeite. Mexi e coloquei por cima das batatas. Envolvi muito bem as batatas neste molho. De seguida juntei dois pedaços de alecrim fresco.

Levei ao forno a assar.

Depois de assadas retirei-as para um prato de servir e filtrei o molho.


Uma delícia!

sábado, 19 de abril de 2008

A Cozinha no livro Rio das Flores - conclusão

«(...) "o filé à Oswaldo Aranha", um bife alto, com muito alho, acampanhando arroz brabco, farofa e batata frita "portuguesa" (ou seja, não fosse isso ferir os direitos autorais do chanceler, aquilo que em Lisboa se chamaria "o bife à portuguesa"). (...) havia o Restaurante Rio Minho, onde se podia pareciar a afamada "sopa de peixes e frutos do mar Leão Veloso" (...). No Restaurante Capela, no coração da Lapa, Diogo ia de vez em quando apreciar o inigualável cabrito assado da casa e aos sábados, por vezes, ia comer a feijoada do Bar Luiz (...). Havia outro clássico, que era a Confeitaria Colombo, onde se ia, ao final da tarde, beber um aperitivo e dar dois dedos de conversa. » p. 402 e 403

«(...) estendeu a capa de oleado, uma espécie de gabardina rudimentar, sobre a cabeça, e, metendo a mão ao bolso das calças, sacou um lenço sujo que desenrolou, tirando lá de dentro meio chouriço e um quarto de pão de centeio (...)» p. 414

«(...) o menu do jantar de Natal era sempre o mesmo - canja de peru, com os respectivos miúdos, lascas de cenoura e um fundo de arroz; bacalhau cozido com couves galegas e azeite em abundância, e o peru assado no forno a lenha, recheado com azeitonas, picado de carne e vinho do Porto, acompanhado de batata palha frita. (...) Depois de saciados com bacalhau e peru, alguns, não todos, ainda acompanhavam o padre Júlio no ataque às sobremesas e doces: ananás, queijo de ovelha amanteigado, rabanadas, sonhos, bolo-rei e siricaia.» p. 460 e 461

«O pequeno-almoço de Amparo também era diferente do da "sala": umas torradascom mel, café muito forte e uma maçã roída à mão.» p. 487

«(...) quando se encontrava com os outros caçadores na cozinha do monte e juntos se aqueciam à lareira que ardia no chão, enquanto esperavam pelos ovos mexidos, o queijo fresco da véspera e o pão da fornada da noite, quente e ainda húmido e ligeiramente azedo» p. 515

«[Para o pequeno-almoço na fazenda Águas Claras] (...) mel e queijo branco de Minas, "pão de queijo", mate e carne grelhada no fogo, como era de costume no Rio Grande do Sul, leite quente acabado de ordenhar e um café, negro e espesso, assinalando a contribuição paulista.» p. 549

«(..) Leopoldina, a imperatriz da cozinha, preparara-lhe o seu prato mineiro favorito: frango à caipira com quiabo e angu, mais feijão tropeiro e couve mineira.» p. 607


Gostei de ler este segundo romance de Miguel Sousa Tavares. Fiquei surpreendida com tantas referências gastronómicas no seu livro.

Estas referências ajudam-nos a compreender como é que se vivia nos anos 30 e 40, em Portugal principalmente, mas também no Brasil. Rio das Flores não é um romance sobre culinária. Mas como se costuma dizer, os bons livros são aqueles que permitem múltiplas leituras. Continue a escrever romances, Miguel!

Carne guisada com legumes, fusilli e vinho do Porto


Coloquei num tacho carne de vaca cortada em pedaços, 3 tomates sem pele, 1 cebola picada, 2 malaguetas vermelhas, 3 dentes de alho picados, 4 cravinhos e azeite. Levei ao lume e deixei cozinhar um pouco.

Refresquei com vinho do Porto e deixei cozinhar com o tacho tapado. De seguida cortei 3 cenouras, 1 alho francês às rodelas (só a parte branca sem a rama verde), uma courgete aos quadradinhos, azeitonas pretas às rodelas (1 embalagem) e 1 embalagem de massa fusilli. Temperei com sal e acrescentei água quente suficiente para acabar de cozinhar.


Um prato simples e rápido, mas sempre saboroso.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

A Cozinha no livro Rio das Flores

Miguel Sousa Tavares faz várias referências à gastronomia no seu livro Rio das Flores. Aqui fica, em continuação do post anterior, mais algumas referências:

«(...) estavam sentados os três numa mesa de canto do Café Central - Luísa, Rafael e Diogo - bebendo vinho branco, acompanhado de torresmos.» p. 204

«(...) de manhã passava pela cozinha e encomendava (...) um farnel para dois, que depois vinha buscar por volta do meio-dia e levava num cesto de vime, ao encontro dela: tortilha de batata e tomate, pastéis de bacalhau com arroz de feijão ou costeletas de porco panadas, queijo, paio, fruta (...)» p. 240 e 241

«Na estação de Inverno, servia-se uma sopa quente de entrada e um prato - de bacalhau ou de carne, excepto à sexta-feira, que era de peixe (o bacalhau não contava como peixe, era uma coisa à parte, um terceiro género, uma espécie de remédio nacional) - e, no final, a criada indagava de cada um se ainda podia servir o bife à casa, uma peça de lombo de vaca grelhada em manteiga; depois, havia fruta, queijo e marmelada e doce. Na estação de Verão, a sopa quente era substituída por uma entrada fria - figos com presunto, gaspacho ou melão - e tudo o resto era igual, excepto os doces, que normalmente cediam a vez aos gelados feitos com a fruta da casa (...).» p. 248

«O jantar de Ano Novo, assim como o de Natal, era sempre um acontecimento gastronómico de referência local (...). Serviu-se a açorda alentejana com bacalhau e ovo, o borrego do monte, alimentado a ervas o ano inteiro, o arroz de miúdos do borrego, o ensopado de lebre e a canja de pombo bravo, que fechava sempre o capítulo dos salgados, sendo seguida por uma profusão de doces de ovos, dos quais os mais celebrados foram a encharcada, o arroz-doce com canela, o leite-creme queimado a ferro para ficar mesmo estaladiço e a siricaia - uma improvável combinação de um doce indiano, que um Bragança, antepassado dos últimos reis de Portugal, trouxera da sua estada em Goa, a que acrescentara as ameixas verdes d´Elvas. Depois veio à mesa um queijo de Serpa curado e um queijo da serra amanteigado, trazido no próprio dia de Seia por um parente (...) - queijos e doces empurrados estômagos adentro com um porto vintage de 20 anos, marca Borges, e uma aguardente de zimbro, cor de âmbar. (...) bebeu-se em Valmonte (...): um Dom Pérignon demi-sec.» p. 256

«O porco era morto por um homem, destro com a navalha, que o sangrava pela garganta lentamente, enquanto o pobre soltava gritos (...). A razão por que o matavam de maneira tão brábara não era por sadismo, mas por fome: o sangue que pingava era recolhido num alguidar e, logo nesse dia, parte dele seria cozinhado e comido, e outra parte seria guardada para os chouriços de sangue. Tudo, aliás, se aproveitava no porco: uma vez morto e escorrido, eram queimados os pêlos, aberto ao meio e retiradas as tripas, que as mulheres iriam lavar ao ribeiro e que, mais tarde, serviriam para ensacar os enchidos. A pele era resrvada para coiratos, que seriam assados na brasa e acompanhados com um vinho tinto de ocasião. As vísceras eram integralmente aproveitadas, assom como os pés, as mãos, a cabeça, as orelhas: tudo era conscienciosamente separado e colocado em baldes, para ser lavado e preparado. Até as amígdalas do bicho, a que chamavam molejas, eram saboreadas, sendo aliás a primeira coisa a ser provada no dia da matança. (...) as únicas coisas que não se aproveitavam no porco deviam ser os olhos e os dentes: tudo o resto tinha a sua utilidade e os seus adeptos. Limpo das partes menos nobres, passava-se às carnes junto à camada de gordura, que eram transformadas em "enchidos" - paios, chouriços, farinheiras - às vezes quase só gordura, envolta nas tripas, atadas com um nó nas pontas e logo penduradas no fumeiro, onde iriam ficar durante meses (...). Alguns mais abastados, talvez guardassem uma perna para fazer um presunto, mas a regra então era salgar toda a carne de primeira - pernas, costeletas, lombos - e, eventualmente, vender parte dela.» p. 264 e 265

«Para os preparar bem (...) tinham-lhes servido caviar Beluga, salmão fumado da Noruega, truta do Reno com presunto, capão estufado com trufas e assado de veado. » p. 289

«Às nove da noite, estava sentado a jantar no ambiente fantástico e luxuoso do Grand Cafés des Capucines (...). Esmerou-se no menu: primeiro, um foie gras de ganso, acompanhado com meia garrafa de Sauterne; depois de uns escargots bourguignome, seguidos de rognon de veau flambé au Porto, terminando com uma salada verde e queijos, tudo acampanhado por um Bordeaux. » p. 299

«Almoçou no hotel, no restaurante do terraço (...). A conselho do maître, experimentou coisas absolutamente desconhecidas e que o encantaram, desde a "batidinha de cana" com limão verde, pequeno, que ele nunca tinha visto, até à "casquinha de siri", feita com um caranguejo mole, de areia, que não havia na Europa, passando pela própria salada com uma espécie de espargo grosso chamado "palmito". » p. 327

«(...) e o caviar tinha de ser "grand grain, gris, sans sel".» p. 328

«- A seguir, temos Les crevettes grises à la bahiana, quer dizer camarões à baiana. Depois, Le Chateaubriand Henri IV à la casserole de légumes é bife com legumes. E La timbale glace Arlequin e Le tambourin fourré de douceurs é gelado e doces variados.» p. 385

domingo, 13 de abril de 2008

A gastronomia no livro Rio das Flores de Miguel Sousa Tavares

Acabei de ler o romance histórico, Rio das Flores, de Miguel Sousa Tavares, que acompanhei através do clube de leitura À Volta das Letras.

A história liga Portugal, Espanha e o Brasil através da família Ribera Flores e em especial, através do personagem Diogo Ribera Flores, alentejano e descendente de proprietários de terra em Estremoz. Mas não é sobre a história do romance que eu pretendo escrever este post.

Um dos aspectos que gostei foi as referências gastronómicas que Miguel Sousa Tavares vai colocando ao longo do seu livro e que nos dão a conhecer um pouco dos hábitos, tradições, influências e estilo de vida dos portugueses, na primeira metade do século passado. Um povo também se conhece pelos seus hábitos alimentares (já devo ter lido isto algures!). Ao ler as referências identifico-me com imensas coisas relacionadas com a maneira de viver das gentes do campo, as diferenças de estatuto social viam-se, entre muitas outras coisas, pela mesa. Pela mesa farta ou por uma mesa de míngua.

Como este é um blogue dedicado à gastronomia, aqui ficam as referências que Miguel Sousa Tavares faz no seu livro. Deliciem-se!



Miguel Sousa Tavares, Rio das Flores, Oficina do Livro, 1ª edição_Outubro de 2007

«(...) Virgolino, que distinguia ao longe todos os pássaros, escutava todos os sons num raio de quilómetros, sabia as histórias de toda a gente, desde os "antigos" até os vivos, e, enquanto falava, ia desenrolando um lenço sujo que sacava do bolso do colete e de lá dentro tirava um pedaço de queijo duro e seco de ovelha ou um resto de chouriço que cortava minuciosamente com o seu canivete sempre à mão (...)» p. 14 e 15

«Os criados jantaram na cozinha e eles numa mesa junto ao grande fogão de sala, (...) enquanto esperavam pelo jantar, com umas lascas de excelente presunto da serra curado à lareira e vinho do planalto andaluz. (...) Veio uma sopa de legumes com grão e batatas, as perdizes caçadas de antevéspera, estufadas com enchidos, azeitonas e toucinho, e um assado de perna de porco com salada de alface. Vários jarros de vinho vieram e regressaram vazios (...).» p. 17

«(...) esperavam que o pai abrisse a discussão política que antecedia invariavelmente a sobremesa, o café, o brandy e os charutos, (...) o sabor do ensopado de borrego, com batatas novas e grão, demorando-se-lhe na boca, antecedendo o pato com azeitonas, que era apenas um ritual para quem porventura ainda tivesse apetite ou gula (...)» p. 54

«Tornou-se um conhecedor e um apreciador do serviço do restaurante [Hotel Avenida Palace na Avenida da Liberdade, em Lisboa], da sua excelente garrafeira e dos seus pratos de referência - os hors-d´oeuvres, os ovos mexidos com espargos verdes, o foie gras trufado, o rodovalho assado no forno com tomate farci, o empadão de lebre ou o pato estufado com azeitonas.» p. 70

«Pedro falava enquanto metia à boca simultaneamente uma azeitona curada e um bocado de pão, o olhar já pousado na terrina de sopa de beldroegas com tomate e queijo de ovelha.» p. 77

«Se apurasse mais o ouvido, ouviria também (...) - um "cantar alentejano" dos homens de Valmonte, afinando as gargantas com uma aguardente de medronho bebida à porta da botica da herdade (...)» p. 84

«(...) muitas vezes se sentava à sombra de um sobreiro e, tal como eles, sacava do seu rancho de "comida de ganhão", como lhe chamavam à base de alho, azeite, coentros, pão e um corte de toucinho para engrossar o caldo. Ou então, se a horta tivesse corrido bem, ficava-se por um gaspacho, que mais não era do que uma água mantida fria dentro de um recipiente chamado tarro, acrescentada de azeite e vinagre e onde boiavam pedaços de pão, tomate, cebola e pimento.» p. 87 e 88

«O cheiro a sardinhas, às belas sardinhas gordas e prateadas de Julho, que agora subia no ar da praça proveniente das várias barraquinhas de comida (...)» p. 92

«Comia (...), umas febras na grelha, acompanhadas de quando em quando por uns nacos de toucinho rigorosamente banha, umas farinheiras, (...), e umas rodelas vadias de chouriço de sangue, tudo acompanhado por incontáveis copos de vinho branco fresco (...).» p. 92 e 93

«A Diogo bem lhe apetecia também umas sardinhas no pão, que aquele cheiro era irressitível para quem passava.» p. 93

«Paravam ali [hotel Palace, em Estremoz], dizia-se, maravilhados pela sua cabeça de xara de porco em vinagrete, as migas de espargos selvagens, os pezinhos de coentrada, as migas de bacalhau, a perdiz estufada com os seus dezassete temperos de lei, o coelho desfiado à S. Cristóvão, a carne de porco do alguidar, o cabrito assado no forno e, em sua época, os tordos em vinha-d´alhos e o pombo bravo estufado com ervilhas» p. 93

«Uma rapariga nova e bonita, (...), entrou segurando uma bandeja com o seu pequeno-almoço habitual, (...): chá e sumo de limão acabado de espremer, torradas com manteiga e compotas, um ovo mexido (...)» p. 103

«Bebeu a infusão de chá de cidreira com sais de frutos que a mãe passara discretamente (...)» p. 128

«Lembrava-se de então ver a mãe a fazer o almoço que iria levar ao pai no campo - nada mais do que uma aguada com azeite, um dente de alho e urtigas a boiar dentro de um tarro de cortiça e onde, nos dias felizes, o pai encontraria também um pedaço de toucinho a dar alguma cor e alguma substância àquela sopa de pobre. E lembrava-se de ver o pai voltar alquebrado ao fim do dia e, nas noites de Inverno, sentar-se junto ao lume no banco de madeira (...) e sacar do bolso algumas bolotas que apanhara do chão e começar a roê-las, como se fosse comida - aquela comida roubada aos porcos que vagueavam no montado de Valmonte. » p. 136

«E ele estendia-lhe uma mão cheia de castanhas, que depois de enfiadas dentro de um púcaro de barro para assar na borralha do lume.» p. 137

«Podiam enfim comprar um porco todos os anos, que a horta e as bolotas alimentavam e cuja matança, nos frios de Dezembro, atulhava a casa de enchidos dependurados a fumar sobre o lume e de arrobas de carne guardadas em vasilhas de sal ou de azeite, assegurando uma reserva de comida para quase metade do ano.» p. 137

«- Dona Maria da Glória, ponho um pau de canela nas compotas de laranja? (...)
- Só nas de laranja amarga (...)»p. 142

«Era ela que cozinhava para o marido, mas, ao contrário da mãe, não era "comida de ganhão", mas sim comida de patrão o que levava ao seu homem: cabeça de xara, escabeche de perdiz, omolete de espargos verdes ou fígados de porco de coentrada» p. 146

«Entrado Novembro, já ela [Maria da Glória] se agitava na expectativa dos preparativos, já começava a combinar com a cozinheira Maria os doces da Consoada, já ia à capoeira marcar o peru da ceia e recomendar que só lhe dessem bolotas a comer, já assentara com o padre Julio os mesmos preparativos de sempre para a Missa do Galo, já massacrara a cabeça de Diogo para que ele não se esquecesse de encomendar na casa Terra Nova, da Rua dos Bacalhoeiros, em Lisboa, o bacalhau graúdo que ela haveria de cozer com as couves da horta. » p. 151

«Terminada a conversa de negócios, apanharam um eléctrico para o Chiado e daí foram a pé para o Tavares Rico (...). Era o melhor, o mais luxuoso, o mais requintado restaurante de Lisboa e celebrava agora os seus 150 anos de história com nova remodelação, das várias que já tivera desde que nascera como simples tasca fundada por dois irmãos em 1779. (...) eles celebraram o seu reencontro (...) com uns canapés de lagosta acompanhados com champagne Taittinger, seguidos de um arroz de perdiz cuja receita se atribuía ao escritor Fialho d´Almeida, e terminando com uns crêpes Suzette flambeados em Grand Marnier. »p. 160

A grande parte das comidas referidas são da região do Alentejo, que é, no livro, onde se passa grande parte da acção.

Sempre que leio estas citações dá-me uma fome. Alguém têm algumas das receitas referidas?

Continua.