Mostrar mensagens com a etiqueta Sotavento Algarvio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sotavento Algarvio. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 31 de março de 2014

Um jantar com Vistas


Há cerca de uma semana, numa sexta-feira à tarde, rumei em direcção a sul a convite da Salmarim. Um pouco antes do sol se esconder, cheguei a Castro Marim, uma pacata vila, junto ao rio Guadiana. A primeira refeição desse fim-de-semana em terras algarvias, ocorreu no empreendimento Monte Rei, Golf & Country Club. Já era noite cerrada, quando estacionámos o carro e entrei na moradia onde seria servido o jantar. A sala de jantar, com vista para a piscina e jardim, permitia-nos circular entre a cozinha e um terraço exterior, onde foram servidos alguns aperitivos, num ambiente muito elegante e acolhedor. Enquanto degustávamos os aperitivos, lollipops de polvo e camarão com massa de arroz, íamos conversando sobre sal, comida e turismo na região algarvia, de forma muito animada.


O grupo pode circular pela cozinha à vontade, cumprimentar e ver trabalhar o chef Jaime Perez, que pertenceu à equipa de Ferran Adrià e actualmente está à frente da cozinha do restaurante Vistas. Para minha grande surpresa, para este jantar privado, tivemos também na cozinha os chefs Dalila e Renato do conhecido restaurante Ferrugem. O ambiente vivido nos primeiros momentos, o carinho com que fomos recebidos, fizeram-me sentir que este fim-de-semana ia ser muito especial.


Já sentados à mesa, começámos por experimentar os diferentes tipos de pão. De cebola - este pão tinha a forma de uma pequena cebola - azeitona, orégãos com flor-de-sal e de passas e nozes, que cheirava tão bem. Com o pão foi servido, azeite e manteiga. Adoro experimentar pães diferentes e não resisto a ensopá-los no azeite ou a barrá-los com a manteiga. Foi-nos servido um refrescante vinho branco do Douro, Vale da Poupa de 2012, que nos iria acompanhar por mais alguns pratos.


A primeira entrada revelou-se cheia de sabores frescos e com diferentes texturas. cannellone de manga com sapateira, molho de sapateira, beterraba frita, rebentos e maracujá fresco.


De seguida chegou-nos à mesa um dos pratos que mais gostei. Tártaro de atum com gelado de wasabi e crocante de sésamo. Delicioso. O gelado de wasabi, ligeiramente picante, combinava na perfeição com o atum.


Os chefs Dalila e Renato trouxeram o Minho ao Algarve. O seu prato procurou trazer diferentes texturas. Sarda fumada na cataplana com tomilho servido numa base de gelatina de tomate, acompanhada de cebolas glaciadas em Alvarinho, manteiga de azeite e microvegetais. O chef Renato explicou-nos como retirar a película que reveste a pele deste tipo de peixes. Basta colocar o peixe durante 45 segundos em vinagre e a película, tipo plástico, sai logo muito bem. Por isso, torna-se agradável comer a cavala ou a sarda com a pele.


O chef Jaime Peres tratou do prato de carne e serviu-nos uma desconstrução do bife Wellington. Lombo de vaca com massa folhada, cogumelos com foie gras e crocante de batata. Um prato rico magnificamente acompanhado por um vinho tinto Quinta de Lemos Jaen de 2007.


Terminámos a refeição com uma espuma de baunilha e fruta fresca, e mignardises para acompanhar o café. O sal, foi um ingrediente que acompanhou a refeição do princípio ao fim. O sal, quando doseado com equilíbrio, ajuda a tornar tudo mais saboroso. Este foi um assunto transversal a este jantar especial, não só na comida servida mas também nas interessantes conversas que houve à volta da mesa e com os restantes convidados e chefs. Na memória fica o convívio e os momentos bons vividos num lugar a que me apetece voltar.


Outro olhar sobre este jantar:
- ... o fim do jantar no Monte Rei por Raul Lufinha;

quinta-feira, 27 de março de 2014

O sal tempera a vida


As memórias associadas à comida são sempre ricas e inigualáveis. O momento em que as vivemos não se volta a repetir e por isso, têm um sabor singular. Uma das memórias que guardo de forma especial é da minha avó Gertrudes, de lenço escuro na cabeça, na sua cozinha a fazer queijo fresco. No final, oferecia-me sempre uma ovelhinha, que não era mais do que um resto de queijo coalhado que apertava entre os dedos. Nunca mais comi, mas a memória que guardo desses momentos e do que saboreei é de conforto. É uma memória doce. Talvez por isso tenha tanta curiosidade em perceber como se faz queijo fresco de forma tradicional.

E no fim-de-semana passado tive essa oportunidade. Cheguei a Foz de Odeleite pela manhã. As águas do Guadiana corriam tranquilas em direcção ao mar e contrastavam com o verde da terra e das oliveiras, e do outro lado da margem, avistávamos Espanha. O sol espreitava por entre o azul do céu escondendo as nuvens que tentaram trazer a chuva. Assim que saí do carro, um cheiro doce, quente pairava no ar - o que seria? - questionei-me. Caminhei, com o restante grupo com quem passei o fim-de-semana a convite da Salmarim, em ruas estreitas de pedra até uma pequena loja. Pelo caminho, silêncio e muitas casas bonitas, vazias, à espera da chegada do rebuliço do Verão.

Ao entrar na queijaria João Manuel G. Ribeiro, o cheiro quente e doce intensifica-se. Agora já sei do que é. Deparo-me com uma sala com uma mesa central grande de inox. Panelas ao lume. É aí que a magia do queijo acontece. As mãos sábias de D. Otília vão colocando o queijo nas formas. Meto conversa. Otília Glória Gonçalo Ribeiro tem 78 anos e é a mãe do actual proprietário. Em frente, com a mesma tarefa está Isabel Cavaco de 72 anos e uma jovem, neta de ambas, que desembaraçadamente tira as panelas do lume ou o leite coalhado para a mesa, onde o soro escorre, e se coloca nas formas. A simpatia é imensa. D. Otília explica-nos como se faz o queijo. O filho, tem um rebanho de cabras algarvias, com 150 a 200 cabeças, que produzem o leite utilizado na queijaria.


O leite é fervido. Depois, terá que arrefecer até aos 56 ou 57ºC. Para ajudar a acelerar o processo na sala têm uns recipientes grandes cheios de água onde colocam as panelas com o leite quente. Quando atinge a temperatura desejada adicionam o sal e o coalho. Este último é feito com flor de cardo. As flores, são trituradas e colocadas em água de um dia para o outro. Depois o líquido é coado. O resultado é uma água castanha, que D. Otília me mostrou. Para mim, foi uma surpresa. Sabia que se usava a flor de cardo para coalhar o leite, mas não sabia como era feito. Sei que antigamente, na minha terra, também se usava coalho animal.

Depois dos queijos feitos, seguimos viagem. A próxima paragem foi na Casa de Odeleite. A casa pertenceu outrora a João Xavier e à sua mulher, Claudina. Foi um entreposto de trocas no início do século XX. Uma casa que guarda a grandiosidade do seu passado. Aqui os nossos anfitriões, Jorge Raiado da Salmarim e Andrew e Rupert da Casa Rosada fizeram-nos uma surpresa.


Pão acabado de fazer foi colocado na mesa. Chegaram também os queijos frescos que vimos preparar de manhã, a que se juntou azeite e manteiga de azeite. O cheiro bom do pão quente é inspirador. Este pão foi cozido em forno aquecido com lenha de esteva. Mas a surpresa estava no sabor. Provámos pão com e sem sal. O sabor de um e outro era completamente diferente. O mais saboroso, sem dúvida nenhuma era o que tinha levado sal. O outro, parecia-me doce e as fatias não se revelavam gulosas. O sal torna a comida mais saborosa. Faz falta. Tempera a comida e a vida.

Enquanto saboreava o pão com o queijo fresco lembrei-me de D. Otília. De rosto doce e sorriso simpático. Das suas mãos marcadas pelo tempo a colocarem o queijo coalhado nos cinchos. E foi com esta imagem, que segui viagem.

domingo, 15 de agosto de 2010

A comida de férias

As férias passadas em Santa Luzia, Tavira, com a família estão associadas a algumas comidinhas e este ano não foi excepção. Entre a comida de férias temos sempre a salada de polvo e as amêijoas à Bulhão Pato, ambos os pratos feitos com produtos locais. Não é à toa que Santa Luzia é conhecida como a capital do polvo e as amêijoas foram compradas a um pescador ou melhor, a um mariscador local.

Num dos dias de férias fomos jantar ao restaurante Casa do Polvo, na marginal, e a ideia foi petiscarmos, seguindo a filosofia da casa. O restaurante estava cheio e já não conseguimos mesa na esplanada. Para a mesa vieram: pataniscas de polvo, rissóis de polvo, salada de polvo, choco frito e feijoada de polvo. Comida óptima numa segunda-feira bem quente. Fiquei com vontade de experimentar as pataniscas de polvo cá em casa.

Numa sexta-feira, escolhemos a marisqueira Fialho, na localidade de Pinheiro, perto de Luz de Tavira para jantar. Estava com algumas expectativas pois várias pessoas me aconselharam o restaurante. Como não reservámos tentámos ir cedo. Chegámos por volta das 19h15 e apesar de estarem duas ou três mesas ocupadas o que é certo é que estavam quase todas reservadas. A grelha junto à entrada do restaurante já laborava. A vitrina junto à zona de esplanada estava cheia de peixe de várias qualidades com um ar muito apetitoso. Conseguimos jantar, mas o grupo de seis pessoas teve que ser dividido em duas mesas. Em conversa com um dos empregados, no mês de Agosto, é conveniente reservar com dois dias de antecedência. Da próxima já sei! :)

Para jantar escolhi espadarte grelhado, o Ricardo e a Cláudia escolheram uma espetada de tamboril com camarão, o Hugo uma espetada de lulas e os meus sogros preferiram ferreiras grelhadas. Todos os pratos foram bem servidos. A frescura do peixe dita a qualidade do prato.

No segundo sábado de férias no Algarve passei a manhã na praia Verde e depois, juntamente com os meus sogros e o Ricardo, rumámos até Ayamonte, em Espanha. O almoço foi num restaurante a que os meus sogros costumam ir quando visitam a tia Dulce na Ilha Canela. O restaurante chama-se Cruyff e está junto a uma zona residencial. Pedimos salada de polvo, saladas de ovas, azevias fritas (assemelham-se a pequenos linguados) e carne de vaca em tomate. A surpresa foi a carne em tomate. Magnífica! A carne estava muito tenra, ao toque do garfo quase que se desfazia e o molho de tomate era perfeito.

No último dia de férias jantei no restaurante Al-Margem com a Margarida, o marido e a pequena Matilde. O restaurante está inserido numa residencial e jantámos na esplanada. As especialidades são à base de carne e seguimos o conselho da Margarida na escolha dos pratos: bife na pedra e espetada de porco preto com camarão. Para sobremesa escolhemos uma torta de alfarroba - adoro sobremesas com alfarroba! - que se revelou uma das melhores que comi esta temporada por terras algarvias.

Bem, para o ano há mais!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Era uma vez uma Casa Cor-de-rosa na Ilha do Farol

Quando cheguei a Santa Luzia, Tavira, de férias procurei conciliar aquilo que gostaria de fazer com as actividades que a restante família também queria, de maneira a que todos os dias tivéssemos uma actividade diferente e assim aproveitarmos o tempo o melhor possível. Uma das actividades que agendei foi a ida ao mercado de Olhão.

Em Abril quando participei no programa Paladares ao Sul, dinamizado pela Associação do Sotavento Algarvio, falhei a visita a este mercado e agora não quis perder a oportunidade. Na passada quinta-feira o programa era passar o dia na Ilha do Farol - como é usualmente conhecida uma das pontas da Ilha da Culatra onde fica o farol - mas antes de apanharmos o barco e seguirmos viagem ainda tive tempo de visitar o mercado que está dividido em dois edifícios. Um deles dedicado ao peixe fresco e o outro às frutas, legumes e carnes. Por mais mercados que visite continuo a deliciar-me com a qualidade dos produtos, a variedade e a apresentação. De férias faço as compras sempre nos mercados. O peixe é fresquíssimo, as frutas e legumes são saborosas e têm cheiro. Um pêssego cheira a pêssego, o tomate a tomate, etc.

A visita ao mercado foi muito rápida, mas ainda descobri o litão seco, um pequeno tubarão que costuma também ser servido na noite de consoada na zona de Olhão.

A viagem até à Ilha da Culatra demorou sensivelmente 45 minutos. O barco ia cheio de veraneantes carregados de chapéus de sol, sacos com toalhas de praia e lancheiras. Procurei um lugar onde pudesse contemplar as vistas e sentir os salpicos da água fresca do mar. Ao longo da viagem a paisagem é bonita. Descobri que há locais marcados pelos respectivos proprietários para a apanha da amêijoa. As canas e as bandeiras são disso sinal. Chegámos à Ilha do Farol antes das 10 horas da manhã e a nossa missão foi descobrir a Casa Cor-de-rosa, dos primos Téte e Gino. Ora é no final desta rua - diziam os meus sogros ... ora não é. Se calhar é na outra rua, acho que é mais junto à água, diziam o Ricardo e o Hugo - e assim andámos um bom bocado até encontrarmos a Casa Cor-de-rosa. Desde que conheci o Ricardo que ouvi falar da Ilha do Farol, das estórias de verão ali passadas com os primos Telma e André, mas esta foi a primeira vez que ali fui e estava cheia de curiosidade. A ideia que construí não correspondeu àquilo que vi. A zona residencial está bem arranjada e organizada. As casas são bonitas, algumas até parecem de brincar.

A manhã passámo-la na praia. E foi preenchida com muitas idas à água, banhos de sol e muita conversa, especialmente com as primas Telma e Téte sobre a Ilha, a Casa Cor-de-rosa que tem cerca de 45 anos e que sempre foi cor-de-rosa. Falámos também das dificuldades do dia-a-dia dos primeiros moradores, do modo como se abasteciam de víveres - durante muitos anos não houve luz eléctrica e só muito recentemente tiveram água canalizada. Condições duras para usufruírem de um pedacinho de paraíso.

Na Ilha do Farol a água é límpida e de vários tons de azul, azul transparente, azul intenso. Não há carros e à noite deve-se ouvir apenas o som das ondas e pouco mais. Silêncio.

À hora marcada, sentámo-nos para almoçar. Que privilégio almoçar com vista para a Ria! Começámos a nossa refeição com ovas de choco feitas na frigideira com azeite, alho e colorau. Uma verdadeira surpresa. Nunca tinha visto nem comido ovas de choco. Estavam macias e são completamente diferentes de outro tipo de ovas que já comi, como por exemplo de pescada ou até mesmo de sardinha.

De seguida veio para a mesa amêijoas à Bulhão Pato, umas amêijoas grandes, fresquíssimas (ainda nessa manhã as tinha visto vivinhas num alguidar com água) e saborosas. A simplicidade dos temperos só se consegue se a qualidade do produto for excelente. Estas amêijoas feitas com alho, azeite e coentros estavam divinais!

O prato principal foi uma magnífica feijoada de chocos feita pelo Gino e pela sua irmã Bélinha. Esta feijoada ainda soube melhor sabendo que foram eles que apanharam os chocos numa das suas muitas idas à pesca.

Para sobremesa foram servidas fatias frescas de melancia, comprada essa manhã no mercado de Olhão, encharcada de ovos e bolo.

Finalizámos a refeição com um vinho branco Quinta da Alorna 2007 de colheita tardia, bem fresquinho, que o Gino fez questão de nos dar a conhecer. Sugestão aprovada! ;)

À tarde demos um passeio até ao pontão da barra. Surpreendi-me mais uma vez com a quantidade de peixe que se consegue observar e acima de tudo com a transparência da água.

Pude também ver ao longe a Ilha da Barreta, mais conhecida por Ilha Deserta. Ao pôr-do-sol regressámos a Olhão com a sensação de um dia muito bem passado.


sábado, 7 de agosto de 2010

De Tavira à Terra Estreita

Na quarta-feira comecei o dia com uma ida ao Mercado de Tavira. Quando viajo tenho sempre o hábito de visitar mercados. Gosto de ver a variedade de produtos, o modo como estão arrumados e deliro com a mistura de cores. As bancas enchem-se de diferentes tons (vermelhos, verdes, laranjas, etc.) alinhados quase geometricamente. Os mercados reflectem os gostos e hábitos de uma população.

No Mercado de Tavira adorei a parte do peixe, notava-se que era muito fresco. Andei de banca em banca e surpreendi-me com uns carapaus enormes, com a cor do atum, com o tamanho da corvina, com o bonito que é mesmo bonito, entre outros. Para casa, os meus sogros trouxeram douradas, mas ficámos, o Ricardo e eu, a pensar nas ferreiras e nos besugos, mas a compra já estava feita.

Na secção das frutas, os figos conquistaram todas as atenções. Nesta pequena visita descobri os figos da mina, os figos castelhanos e os orelhas de mula, estes últimos ainda não provei. Todos os anos aqui no Algarve elegemos uma fruta. Houve anos em que foram as uvas, especialmente a uva D. Maria que aparece no final de Agosto, outros os pêssegos, mas este ano são sem dúvida os figos. Desde que cá estamos não há dia em que não comamos figos.

O dia foi passado na praia da Terra Estreita ou Praia de Santa Luzia, para a qual temos que ir de barco. A viagem é curta mas mesmo assim sabe bem e é muito agradável sentir o fresco da água, observar as gaivotas a levantar voo à passagem do barco e nos dias de maré baixa ainda encontramos alguns pescadores na apanha da amêijoa. Como em quase todas as praias por aqui, a água é azul, um azul claro e límpido e, a temperatura, este ano, ronda os 25ºC. Uma maravilha.


Ao jantar, o Ricardo grelhou as douradas compradas de manhã na praça e ficaram no ponto. Está mesmo um especialista em grelhados. Como já referi noutro post, um dos truques para que a pele do peixe não fique agarrada à grelha é pincelar o peixe com azeite. Outro truque é não tirar as escamas.

Acompanhámos as douradas com batata cozida, uma salada mista (alface, tomate, pepino e pimento) e uma garrafa de vinho verde bem fresquinha.

Terminámos o dia numa esplanada em Santa Luzia a beber licor de amêndoa amarga com limão e gelo.

Assim, a vida sabe muito bem! ;)