O testamento dos pais não deixava espaço para dúvidas, mas a partilha de poder não era fácil, assemelhava-se à ingestão diária de pequenas doses de veneno. Que como sabemos, não mata mas vai moendo, corroendo, criando aqui e ali pequenos atritos, reveladores de um descontentamento enraizado.
Júlia era a mais velha de 5 irmãs. Foi a ela a quem coube as rédeas do destino da herança deixada pelos pais. Uma quinta com vários hectares, com produção de vinho, azeite, arroz e criação de gado, num vale situado no coração do Ribatejo.
Geria a quinta com pulso de ferro e tinha na alma o mesmo jeito para os negócios que o velho patriarca. Usava o cabelo preto comprido, preso num carrapito. Preferia as calcas de ganga, as botas feitas com pele de vitela em Almeirim e, a simplicidade de uma camisa ou t-shirt à elegãncia de um vestido.
As irmãs do meio — Mafalda, Leonor e Adriana — presas em casamentos por conveniência, habitavam na órbita da casa principal, vigiando cada passo de Júlia com um ressentimento silencioso. A harmonia forçada da família quebrava-se apenas quando Maria Beatriz, a irmã mais nova, se fazia anunciar. O pretexto daquela visita, num dia chuvoso e cinzento de Verão, era a distribuição dos lucros trimestrais da quinta. Júlia sabia que a única forma de evitar uma tempestade e discussões azedas, na sala de visitas, era sentá-las a todas em redor da mesa de carvalho da sala de jantar. O estômago cheio acalma as línguas mais afiadas e deixa espaço para a boa vontade.
Para o almoço, Júlia ordenara que a cozinheira da casa, a Dona Amélia, colocasse a assar no tacho, um frango criado na quinta e, que o perfumasse com limão, tomilho e maçã.
Assim que o tacho chegou à mesa, um aroma intenso a campo invadiu a sala de jantar, abafando temporariamente o ambiente pesado. Júlia serviu as irmãs por ordem de idades, guardando para o fim o prato de Maria Beatriz, que observava a sumptuosidade da casa com um sorriso distante.
Mafalda, Leonor e Adriana comiam, como habitualmente, num silêncio cortante, trocando olhares cúmplices sempre que Júlia elogiava a qualidade das uvas da quinta ou, falava dos vitelos que tinham acabado de nascer ou, da sua égua, a Estrela.
Maria Beatriz, depois de ensopar um generoso pedaço de pão caseiro no molho rico e perfumado do frango, afirma: “A Júlia pode ficar com o trabalho todo da quinta”, olhando fixamente para as outras três irmãs, acrescenta: “Ninguém nega que o lucro desta quinta continua a saber muito bem”.
Júlia limpou os lábios ao guardanapo de linho, que fazia questão de colocar na mesa sempre que as recebia, fixou o olhar nas quatro irmãs e, preparou-se para fazer o anúncio que mudaria o destino daquela herança.
O que acham que vai acontecer? Deixo-vos a receita do frango assado perfumado com limão, tomilho e maçã, que a Dona Amélia tão brilhantemente confeccionou.
Júlia era a mais velha de 5 irmãs. Foi a ela a quem coube as rédeas do destino da herança deixada pelos pais. Uma quinta com vários hectares, com produção de vinho, azeite, arroz e criação de gado, num vale situado no coração do Ribatejo.
Geria a quinta com pulso de ferro e tinha na alma o mesmo jeito para os negócios que o velho patriarca. Usava o cabelo preto comprido, preso num carrapito. Preferia as calcas de ganga, as botas feitas com pele de vitela em Almeirim e, a simplicidade de uma camisa ou t-shirt à elegãncia de um vestido.
As irmãs do meio — Mafalda, Leonor e Adriana — presas em casamentos por conveniência, habitavam na órbita da casa principal, vigiando cada passo de Júlia com um ressentimento silencioso. A harmonia forçada da família quebrava-se apenas quando Maria Beatriz, a irmã mais nova, se fazia anunciar. O pretexto daquela visita, num dia chuvoso e cinzento de Verão, era a distribuição dos lucros trimestrais da quinta. Júlia sabia que a única forma de evitar uma tempestade e discussões azedas, na sala de visitas, era sentá-las a todas em redor da mesa de carvalho da sala de jantar. O estômago cheio acalma as línguas mais afiadas e deixa espaço para a boa vontade.
Para o almoço, Júlia ordenara que a cozinheira da casa, a Dona Amélia, colocasse a assar no tacho, um frango criado na quinta e, que o perfumasse com limão, tomilho e maçã.
Assim que o tacho chegou à mesa, um aroma intenso a campo invadiu a sala de jantar, abafando temporariamente o ambiente pesado. Júlia serviu as irmãs por ordem de idades, guardando para o fim o prato de Maria Beatriz, que observava a sumptuosidade da casa com um sorriso distante.
Mafalda, Leonor e Adriana comiam, como habitualmente, num silêncio cortante, trocando olhares cúmplices sempre que Júlia elogiava a qualidade das uvas da quinta ou, falava dos vitelos que tinham acabado de nascer ou, da sua égua, a Estrela.
Maria Beatriz, depois de ensopar um generoso pedaço de pão caseiro no molho rico e perfumado do frango, afirma: “A Júlia pode ficar com o trabalho todo da quinta”, olhando fixamente para as outras três irmãs, acrescenta: “Ninguém nega que o lucro desta quinta continua a saber muito bem”.
Júlia limpou os lábios ao guardanapo de linho, que fazia questão de colocar na mesa sempre que as recebia, fixou o olhar nas quatro irmãs e, preparou-se para fazer o anúncio que mudaria o destino daquela herança.
O que acham que vai acontecer? Deixo-vos a receita do frango assado perfumado com limão, tomilho e maçã, que a Dona Amélia tão brilhantemente confeccionou.






