Na passada sexta-feira, tal como anunciei aqui, estive na Feira do Livro de Lisboa, a convite de Nuno Seabra Lopes e moderador da conversa, a falar de comida. Na mesa, duas outras ilustres convidadas e com obras publicadas na área, Margarida Pereira-Muller e Paulina Mata. Já conhecia alguns dos seus trabalhos, mas estar ali na mesa ao seu lado, foi um prazer e, no início, com algum nervosismo até. Coisas de principiante nestas andanças! ;)
A conversa andou à volta da sazonalidade dos ingredientes, da importância de falarmos de comida em família, de colocarmos as crianças a ajudar em pequenas tarefas, pois quando se participa as coisas têm outro sabor. A cozinha da mãe acaba por ser a cozinha dos afectos, das sensações, da memória que nos acompanha. Falámos também de algumas mudanças. Hoje encontramos uma grande variedade de produtos durante o ano todo. De certa forma perde-se o encanto de comer determinada fruta, por exemplo, apenas em certa altura do ano. Por outro lado, encontramos muitos mais produtos que há alguns anos atrás. As courgettes, as beringelas, os chuchus, mais recentemente as acelgas, o romanesco, a pastinaga, as ervas aromáticas em vasinhos, apareceram regularmente nas secções de frutas e legumes há para aí dez ou quinze anos, talvez.
Houve uma altura em que encontrava receitas de ruibarbo em blogues ingleses e americanos com muita frequência e só há cerca de dois ou três anos é que comecei a encontrar à venda por cá. Só ainda não consegui encontrar laranjas sanguíneas! Se temos mais variedade de produtos, consequentemente a nossa maneira de cozinhar modifica-se. E aqui os blogues, na minha opinião, têm tido um papel muito importante.
Os blogues de comida, a grande maioria, é feita por pessoas sem formação na área, o que facilita o aumentar a proximidade entre o autor e o consumidor/leitor. Os blogues permitem ainda uma grande interação e partilha. O sistema de comentários é uma excelente ferramenta para os leitores tirarem dúvidas ou até darem o seu feedback de como resultou a receita ou até se foram feitas alterações ou não. Outro aspecto que é possível observar nos blogues é a republicação de receitas e o consequente enriquecimento destas, por exemplo, eu faço uma receita e depois outra pessoa acrescenta um ingrediente ou faz num bolo uma cobertura de que não me tinha lembrado. Isto já acontecia com os outros meios ditos tradicionais, mas agora o fenómeno é mais rápido e mais visível. As publicações cruzadas é outro aspecto que os blogues trouxeram através de pequenos desafios ou de concursos. Por exemplo, quando o Cinco Quartos de Laranja fez 5 anos, lançou um desafio que se intitulava Cinco anos, Cinco ingredientes, em que pedia às pessoas receitas com apenas cinco ingredientes.
Os blogues de comida são uma excelente ferramenta de divulgação da gastronomia. Chamam a atenção para ingredientes e maneiras de confecção, relatam experiências, explicam conceitos, indicam autores, fazem referências para outros blogues, traduzem receitas e arriscam combinações inovadoras. Dão a conhecer produtos. Ajudam a criar hábitos e a mudar o modo como nos relacionamos com a comida. Dado as características dos próprios blogues, estes permitem que se estabeleçam relações de confiança e empatia entre quem lê o blogue e quem o escreve. Por exemplo, eu já recebi comentários a dizer-me que vão fazer aquela receita porque as receitas da Laranjinha lhe saem sempre bem ou vão arriscar usar determinado ingrediente porque eu o aconselho! Isto acontece no Cinco Quartos de Laranja e em todos os outros blogues de comida.
Os blogues permitem uma consulta rápida das receitas e que os leitores escolham os seus favoritos. A escolha é feita pela proximidade. Escolhe-se o blogue com que nos identificamos. Há centenas de blogues de comida em Portugal e cada um tem o seu estilo. Se gosto do blogue X ou Y, quando quero procurar uma receita é a esses que vou em primeiro lugar. Sobre blogues de comida/gastronomia muito ainda há para dizer. O assunto começa a ser agora discutido e a ter alguma atenção dos meios de comunicação, o que é muito bom.
E os livros? Os livros de receitas ainda são a referência ou não? E o YouTube?
Na minha geração, penso que os livros ainda são a referência por isso há programas de televisão que se transformam em livros, há blogues que fazem livros. Muitos dos grandes blogues de comida ingleses, americanos e franceses têm livros publicados ou artigos em revistas. O livro funciona ainda como um factor de credibilização. Ter um blogue é uma coisa, mas ter um livro publicado é outra. O patamar de referência e de estatuto é diferente. Se os livros continuarão a ser a referência para as próximas gerações ainda é uma coisa para ver. As alterações tecnológicas são tantas que o mais certo é o conceito de livro se transformar. Possivelmente com o Kindle (ou outro leitor de livros digitais), tal como foi referido na conversa, o conceito livro já se está a alterar.
Quando penso procurar uma receita normalmente não recorro ao YouTube. Faço-o quando quero ver como se faz uma determinada técnica, pois tem a vantagem de conseguir mostrar passo a passo e de forma visual a execução de uma receita, o que muitas das vezes é mais difícil colocar por escrito. Quando se escreve uma receita, há certos pormenores e passos que ficam esquecidos por parecerem tão evidentes e aí o YouTube poderá ser mais esclarecedor.
É bom falar de comida, especialmente com pessoas que têm cartas dadas na área. É bom saber que os blogues começam a ter espaços nestas conversas. Esperemos que haja mais!
Um muito obrigada ao Nuno Seabra Lopes por esta oportunidade.
P.S.: Desde quinta-feira ao final do dia que o Blogger.com, o serviço que aloja este blogue, tem tido alguns problemas. No caso do Cinco Quartos de Laranja ainda não estão repostos todos os comentários.

