A rotina dos seus dias pouco se tem alterado, no último ano. O Coronel, começa todas as manhãs, depois de tomar o pequeno-almoço, sob o olhar atento de Rosa, a ler o jornal sentado na cadeira de baloiço virado para o jardim. Nos últimos tempos, nunca consegue acabar as leituras. As memórias invadem-lhe o coração e começa inevitavelmente a pensar na vida. A olhar para trás. A recordar. Hoje, o estrondo forte feito por um carro na rua, sobressaltou-o e foi o pretexto para fechar o jornal e pensar em África, onde esteve na Guiné, durante a Guerra do Ultramar.
O barulho seco do carro fez-lhe lembrar uma emboscada que a sua companhia sofreu quando ia de Bissau para Cacheu. O ataque deu-se à entrada desta última localidade, numa estrada, esburacada, onde não circulavam carros há muitos anos. A viagem feita de luzes desligadas, muito lentamente, foi um teste de resistência aos nervos. A noite anterior ao ataque tinha sido passada em Teixeira Pinto e não foi das melhores. Não havia camas para todos os soldados e o Coronel não conseguiu pregar olho. Decidiu ficar no carro mas as melgas, o tempo quente e húmido que lhe deixavam a roupa encharcada de suor, não ajudaram. Na viagem, esteve vinte e quatro horas sem sair do carro até ao momento em que a coluna foi atacada com tiros vindos de todo o lado, que mais parecia uma chuva de granizo. Os seus homens responderam e conseguiram sair da emboscada com o apoio de dois bombardeiros no ar. Mas no meio do fogo, uma bala certeira apagou um dos seus grandes camaradas.
Na guerra vê-se a morte, mas pensa-se na vida. Ali tem-se a certeza que a morte inveja a vida. E no meio de todo o caos, questiona-se ainda mais o sentido da vida. Luta-se para conquistar algo que a certa altura se deixa de saber bem o que é. Perde-se a referência e são os outros que se transformam em apoio, que dão uma ajuda para se voltar a encontrar o norte. A vida é uma bênção. Aqueles que se vêem cair, ajudam a ser quem somos, são a moldura do puzzle que é a nossa vida. Desde a guerra que o Coronel acredita que só morremos quando morrer a última pessoa que se lembrar de nós. Por isso ele gosta de recordar. E se na guerra viveu muitos amargos de boca, foi também ali que encontrou amigos para a vida, com quem passou momentos que até hoje recorda de forma muito feliz. De sorriso aberto.
As idas à praia do Biombo, onde se enchiam de ostras frescas, camarão e cerveja Cuca, ficaram na memória do Coronel como momentos muitos especiais. Depois de comerem bem, rematavam o final das refeições com umas garrafas de ginjinha. A zona era segura e passavam lá horas e horas nos dias de folga. Eram momentos de pausa, de paragem e de silêncio no meio de toda a confusão que os rodeava. Iam para ali conversar, ouvir o mar, comer e beber ginjinha. O Eduardo Canelas era o responsável pelo fornecimento. O Coronel nunca conseguiu saber como é que ele arranjava a bebida. Pelos rótulos, a ginjinha vinha de umas tascas, perto do
Rossio, onde costumavam passar, mas como chegava às mãos do Eduardo, foi sempre um segredo bem guardado.
Desde que voltou, em 1975, que faz questão de ter sempre uma garrafa de ginjinha em casa. Pois há dias, em que se lembra e gosta de brindar àqueles que nunca irá esquecer. Hoje, será um desses dias.
Ginjinha ou Licor de Ginja
Ingredientes:
1Kg de ginjas
1L de aguardente
1Kg de açúcar branco
1 pau de canela
1. Colocar todos os ingredientes num recipiente com tampa. Fechar.
2. Nos primeiros 3 ou 4 dias, agitar pelo menos uma vez por dia o recipiente até o açúcar estar dissolvido.
3. Guardar num local escuro durante seis meses.
Agradeço à minha colega Rosário Cruz, que num dia solarengo de Junho, me surpreendeu com um saco de ginjas na minha secretária. Obrigada! Foi com elas que fiz esta ginjinha.
Esta história faz parte de uma
viagem gastronómica por Lisboa onde se inclui:
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Bacalhau à Brás e os sabores de Lisboa;
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Pastéis de nata e os sabores de Lisboa.