terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Ginjinha e os sabores de Lisboa


A rotina dos seus dias pouco se tem alterado, no último ano. O Coronel, começa todas as manhãs, depois de tomar o pequeno-almoço, sob o olhar atento de Rosa, a ler o jornal sentado na cadeira de baloiço virado para o jardim. Nos últimos tempos, nunca consegue acabar as leituras. As memórias invadem-lhe o coração e começa inevitavelmente a pensar na vida. A olhar para trás. A recordar. Hoje, o estrondo forte feito por um carro na rua, sobressaltou-o e foi o pretexto para fechar o jornal e pensar em África, onde esteve na Guiné, durante a Guerra do Ultramar.

O barulho seco do carro fez-lhe lembrar uma emboscada que a sua companhia sofreu quando ia de Bissau para Cacheu. O ataque deu-se à entrada desta última localidade, numa estrada, esburacada, onde não circulavam carros há muitos anos. A viagem feita de luzes desligadas, muito lentamente, foi um teste de resistência aos nervos. A noite anterior ao ataque tinha sido passada em Teixeira Pinto e não foi das melhores. Não havia camas para todos os soldados e o Coronel não conseguiu pregar olho. Decidiu ficar no carro mas as melgas, o tempo quente e húmido que lhe deixavam a roupa encharcada de suor, não ajudaram. Na viagem, esteve vinte e quatro horas sem sair do carro até ao momento em que a coluna foi atacada com tiros vindos de todo o lado, que mais parecia uma chuva de granizo. Os seus homens responderam e conseguiram sair da emboscada com o apoio de dois bombardeiros no ar. Mas no meio do fogo, uma bala certeira apagou um dos seus grandes camaradas.

Na guerra vê-se a morte, mas pensa-se na vida. Ali tem-se a certeza que a morte inveja a vida. E no meio de todo o caos, questiona-se ainda mais o sentido da vida. Luta-se para conquistar algo que a certa altura se deixa de saber bem o que é. Perde-se a referência e são os outros que se transformam em apoio, que dão uma ajuda para se voltar a encontrar o norte. A vida é uma bênção. Aqueles que se vêem cair, ajudam a ser quem somos, são a moldura do puzzle que é a nossa vida. Desde a guerra que o Coronel acredita que só morremos quando morrer a última pessoa que se lembrar de nós. Por isso ele gosta de recordar. E se na guerra viveu muitos amargos de boca, foi também ali que encontrou amigos para a vida, com quem passou momentos que até hoje recorda de forma muito feliz. De sorriso aberto.

As idas à praia do Biombo, onde se enchiam de ostras frescas, camarão e cerveja Cuca, ficaram na memória do Coronel como momentos muitos especiais. Depois de comerem bem, rematavam o final das refeições com umas garrafas de ginjinha. A zona era segura e passavam lá horas e horas nos dias de folga. Eram momentos de pausa, de paragem e de silêncio no meio de toda a confusão que os rodeava. Iam para ali conversar, ouvir o mar, comer e beber ginjinha. O Eduardo Canelas era o responsável pelo fornecimento. O Coronel nunca conseguiu saber como é que ele arranjava a bebida. Pelos rótulos, a ginjinha vinha de umas tascas, perto do Rossio, onde costumavam passar, mas como chegava às mãos do Eduardo, foi sempre um segredo bem guardado.

Desde que voltou, em 1975, que faz questão de ter sempre uma garrafa de ginjinha em casa. Pois há dias, em que se lembra e gosta de brindar àqueles que nunca irá esquecer. Hoje, será um desses dias.


Ginjinha ou Licor de Ginja

Ingredientes:
1Kg de ginjas
1L de aguardente
1Kg de açúcar branco
1 pau de canela


1. Colocar todos os ingredientes num recipiente com tampa. Fechar.

2. Nos primeiros 3 ou 4 dias, agitar pelo menos uma vez por dia o recipiente até o açúcar estar dissolvido.

3. Guardar num local escuro durante seis meses.


Agradeço à minha colega Rosário Cruz, que num dia solarengo de Junho, me surpreendeu com um saco de ginjas na minha secretária. Obrigada! Foi com elas que fiz esta ginjinha.

Esta história faz parte de uma viagem gastronómica por Lisboa onde se inclui:
- Bacalhau à Brás e os sabores de Lisboa;
- Pastéis de nata e os sabores de Lisboa.

30 comentários:

  1. Que bela estória amiga gostei muito e que bela ginginha....bjokitas

    ResponderEliminar
  2. Olá Belinha,
    muito obrigada.

    Um beijinho.

    ResponderEliminar
  3. Eu tenho garrafas de ginginha (com elas) que ainda foram preparadas pela minha avó! E sabes que tenho pena de as beber? No outro dia abri uma garrafa e a ginja tinha um sabor envelhecido maravilhoso, com a fruta bem macerada pela alcool... Acho que estou a prolongar a vida das garrafas como gostava de poder ter feito com a vida da minha avó :-s

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Ondina,

      essas garrafas vão ser sempre especiais. Uma das frases que me acompanha é que "só morremos quando morrer a última pessoa que se lembrar de nós". Para mim, faz muito sentido.

      Um beijinho e um abraço apertado.

      Eliminar
  4. Não sabia que era assim que se fazia a nossa ginjinha! Deve ser dificil encontrar é ginja á venda.. eu pelo menos nunca vi. beijo

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Marmita,

      não é fácil encontrar as ginjas, mas consegue-se. Vale a pena experimentares fazer.

      Um beijinho.

      Eliminar
  5. Que estória maravilhosa, e esse licor... é bem ao meu gosto. Nunca fiz, mas na minha ultima ida a Òbidos, em Dezembro, trouxe umas garrafinhas de ginga artesanal. Muito bom mesmo!
    Beijinho

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Maria José,

      a ginjinha de Óbidos é muito boa. Quando lá vou também procuro trazer.

      Obrigada.

      Um beijinho.

      Eliminar
  6. Ficou linda a apresentação e deve ser um licor muito saboroso!!!

    abraço
    Daniel Deywes
    http://feitonahora.blogspot.com/

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Daniel,

      em Portugal há zonas em que é um dos produtos típicos. Assim feito por nós, tem outro sabor!

      Bom fim-de-semana.

      Eliminar
  7. A ginjinha é mesmo um clássico e brindar com ela aqueles que já cá não estão parece me muito bem!Tchim tchim...

    Bjoka
    Rita

    ResponderEliminar
  8. Adorei a receita. E é mesmo um clássico, servida em copinhos de chocolate sabe tão bem :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O Coração da Casa,

      servida em copinhos de chocolate, então, é maravilhosa!
      Um beijinho.

      Eliminar
  9. Laranjinha,

    Gostei tanto desta história por Lisboa em torno da ginjinha! A minha mãe faz uma receita semelhante e eu acho que fica excelente. Confesso que a minha parte preferida é trincar a ginja. ;)

    Beijo grande*

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Suzana,

      muito obrigada. Adoro escrever estas histórias!
      Eu também prefiro sempre ginjinha com elas. :)

      Um beijinho grande para ti.

      Eliminar
  10. Desde quando vivo em Portugal nunca encontrei ginjas...a minha familia na Roménia, prepara Ginjinha, doces e compotas sempre, temos sorte de ter um quintal com arvores de ginja :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Ramona,

      é difícil encontrar. Procura nas mercearias de bairro ou nos mercados. Assim que começa a época, costumam aparecer, mas em muito pouca quantidade.

      Um beijinho.

      Eliminar
  11. As minhas ginjas não chegaram a ser licor ( foram logo comidas ).
    Gostei da tua ginjinha.Mas... ADOREI a história!Já tinha saudades do Coronel : )

    Beijinho

    A Comadre
    P.S A caixinha! A caixinha! ; )

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Querida Comadre,

      quando recebi estas ginjas achei-as tão preciosas que só houve direito a uma para cada um! :)

      A caixinha ... tem que voltar a aparecer na história....?! ;)

      Um beijinho e votos de bom fim-de-semana.

      Eliminar
  12. LARANJINHA, VOCÊ NÃO TEM IDÉIA AS MEMÓRIAS QUE SEU LICOR ME LEVOU...MEU PAI ABRINDO AS GARRAFAS QUE VINHAM TRAZIDAS DE PORTUGAL E AS GIGINHAS DESCENDO PARA O GARGALO E TAPANDO A SAIDA DO LICOR, AQUILO NÃO SEI PORQUE ME FASCINAVA, ANOS DEPOIS AS SABOREAVA COM UM FIO DE LICOR.....AINDA GOSTO MUITO, PRINCIPALMENTE QUANDO ACHO O LICOR AQUI. OBRIGADA POR ME LEVAR A UM PASSADO TÃO QUERIDO!!!!!! BJINHOS DA GINA

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Gina,

      nem imagina como gostei de ler o seu comentário. Os sabores ligam-nos uns aos outros de uma forma maravilhosa.

      Um beijinho e um abraço apertado.

      Eliminar
  13. Adoro ginjas e licor de ginjinha! O teu ficou maravilhoso :) Uma história linda de se ler, na nossa Lisboa.
    Um beijinho.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Ginja,

      nem imaginas como estou a adorar explorar os sabores de Lisboa pelas memórias deste personagem! No fundo, as memórias dele são também as nossas.

      Um beijinho.

      Eliminar
  14. Também adoro licor de ginja.
    Faço de 2 em 2 anos com o meu marido e o meu pai. ;)
    Obrigada pela partilha.

    Beijossss

    Di

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Didi,

      fazer assim em família é algo especial.

      Um beijinho.

      Eliminar
  15. Que linda história :)
    Hummmm que delicia, ginjinha caseira deve ser uma maravilha!

    Beijinhos MissB
    http://arcoirisnacozinha.blogspot.com/

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá MissB,

      muito obrigada.

      Um beijinho.

      Eliminar
  16. está com boa cor. A receita é parecida com a minha http://obolodatiarosa.blogspot.com/2011/05/ginjinha.html
    Bjs

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Mané,

      a cor ficou muito bonita. E cá por casa já está quase a acabar! :)

      Um beijinho.

      Eliminar