A origem do meu desejo de apanhar espargos bravos começou, acredito eu, num texto de
Francisco José Viegas publicado na já extinta Grande Reportagem, na sua coluna
O Cozinheiro Ideal, que partilho aqui:
«"Estou tão contente por não gostar de espargos", diz uma menina num dos contos de
Lewis Carroll. "Se gostasse teria de comê-los", responde o amigo. Os espargos são uma lenda campestre e volto a eles - verdes, colhidos no campo, só em meses de chuva. Eu sei que o leitor mal tem tempo para caminhar, quanto mais ir colhê-los ao campo, embrulhado em botas e mal protegido das intempéries. Nas estradas de província, no
Douro ou no
Alentejo (de onde vêm os melhores), há quem os venda aos molhinhos, a cinco euros, preço médio na sua época. Juntamente com as azedas do Douro, que crescem nos muros, e as melhores saladas de Primavera exigem (e, dirá o leitor mais afectuoso, as
labaças para juntar aos ovos, as
beldroegas para a sopa e para a salada, o
cardo para a sopa), os
espargos são mais do que essa lenda e a sua utilidade; a sua existência cumpre uma mitologia desregrada e saudável, mesmo que saibamos que responde pelo nome
asparagus Lenuifolius, o que não nos deve afastar do essencial que é o seu sabor.
Vamos, pois, aos
asparagus Lenuifolius. Lavem-se os espargos do molhinho, verdes e fibrosos, corte-se a parte mais rija do caule e mergulhem-se em água por cinco minutos (podem juntar-se umas gotas de vinagre durante o banho de imersão). A seguir vem o alho, de que devem picar-se três dentes, que deve estar a aquecer numa frigideira (de ferro é preferível, senhores). Juntem-se os espargos quando o alho amarelecer sem queimar, e deixe-se frigir o conjunto enquanto se batem os ovos, com sal, pimenta e mais nenhuma outra invenção - são eles que devem amaciar os espargos, daí a menos de cinco minutos, até ficarem apenas cremosos. É uma benção, desde que o pão com que são comidos seja de boa qualidade. Depois disto, qualquer espargo de lata sabe a salbutamol ou benzofluoranteno. Sabe o que é?»
As crónicas sobre gastronomia de
Francisco José Viegas, na Grande Reportagem, fascinavam-me. Adorava as palavras, as receitas, o modo como nos transmitia a sua paixão pela comida. Não sei se continua a escrever sobre gastronomia em alguma publicação nacional - se souberem, avisem-me s.f.f.! - mas eu guardei cuidadosamente as suas crónicas. Com a mudança de casa tive que me desfazer da colecção de revistas da Grande Reportagem, mas as crónicas do Francisco José Viegas dos números em que ele colaborou foram resgatadas e guardadas. Ao reler novamente a crónica sobre os espargos, decidi que seria este ano, o ano em que iria ao campo apanhar espargos. E assim nasceu
um desejo, que entretanto
foi concretizado pela mão da Cristina Lebre, em
Estremoz.
Mas da crónica do escritor Francisco José Viegas surgiu também a vontade de fazer ovos com espargos bravos que tão deliciosamente descreve.
Quando visitei o mercado de Estremoz, não resisti e comprei um molho de espargos na banca do senhor Henrique.
Ingredientes:
1 molho de espargos-bravos
6 ovos
3 dentes de alho
sal e pimenta preta de moinho q.b.
manteiga
fatias de pão para servir
1. Lavar os espargos. Retirar parte do caule duro.
2. Escaldar os espargos durante cinco minutos em água a ferver.
3. Picar os dentes de alho.
4. Colocar a manteiga numa frigideira e levar ao lume. Assim que a margarina derreter adicionar os dentes de alho e deixar frigir um pouco, sem que o alho queime.
5. Adicionar os espargos cortados grosseiramente. Deixar cozinhar um pouco.
6. Bater os ovos com sal e pimenta a gosto. Juntar os ovos com os espargos na frigideira. Mexer e deixar cozinhar até os ovos estarem prontos.
7. Servir os ovos mexidos com as fatias de pão.
Uma benção! Os espargos ficam crocantes, estaladiços, proporcionando explosões de sabor. Em relação à receita original apenas substituí o azeite pela manteiga.
Eu já tinha experimentado fazer estes ovos usando um molhinho de espargos de compra e realmente não tem nada a ver. Então com espargos de lata nem se fala!