quarta-feira, 21 de Setembro de 2011

Pastéis de nata e os sabores de Lisboa


O Coronel pegou na caixa de madeira pintada e sentou-se na cadeira de baloiço, que nos últimos anos o tem amparado. Colocou a caixa em cima dos joelhos e agarrou a pequena chave presa com uma fita gasta, já sem cor, para a abrir. Mas antes, levantou o olhar, suspirou e contemplou o céu cerrado, negro, que anunciava mais um final de tarde chuvoso.

Há muito que se tinha refugiado nesta casa, perto da cidade, mas ao mesmo tempo escondida da confusão de Lisboa. A casa, hoje parcialmente desabitada, teve em tempos vida, crianças a correr e a rir pelos corredores de madeira. A sua memória é tão viva, que quase as consegue ouvir! Quantas vezes escolhiam o seu quarto para brincar às escondidas. - Rita, Pedro, Carolina, onde é que é que vocês estão? - gritava ele. O quarto do pai não é para brincadeiras! Voltem já para o jardim. E as crianças saiam do quarto apressadas e com um ar envergonhado. Quando chegavam ao corredor lançavam-se numa corrida para ver quem chegava primeiro ao jardim. Foram tempos tão felizes! Mas a vida é mesmo assim. A andorinha protege as suas crias até ao momento em que estas aprendem a voar. O mesmo se passa com os filhos. Crescem, têm as suas próprias responsabilidades, os seus próprios caminhos a seguir. E a pouco e pouco, deixam de precisar e acabam por não aparecer.

Depois de um forte relâmpago, a chuva começa a cair. O Coronel pousa a chave da caixa. Pega na chávena de café que aguardava na mesa ao lado, a fumegar. As paredes envidraçadas, deixam escorrer a água e do jardim fica apenas uma mancha única verde, desfocada. No ar começa-se a sentir o aroma doce da Dama-da-Noite. Aconchega a chávena quente de café nas mãos e suspira. Como gostava de saborear uma chávena de café. Este aroma inconfundível, caramelizado e amargo, era delicioso. Transmitia-lhe uma sensação na boca sólida e inquieta, como o cheiro fumado do crepitar de uma lareira ou quando as narinas se dilatam perante o perfume doce das especiarias.

O café fez-lhe lembrar Maria Ana. A empregada d'A Brasileira, o café, no Chiado, onde costumava passar algumas tardes, no tempo em que a vida era fácil e em que acreditava. Acreditava que era capaz de tudo. A juventude é o tempo das doces ilusões.

Maria Ana, a empregada de mesa, roliça e de sorriso fácil com quem gostava de trocar galanteios. A cintura era delgada e a perna cheia. Uns olhos grandes, verdes, enchiam-lhe o rosto de boneca. Os lábios pareciam bagos de romã de um vermelho vivo. Como adorava escrever-lhe bilhetinhos de amor, que deixava debaixo das chávenas de café. Maria Ana sempre que os encontrava, baixava os olhos e sorria de alegria. Rapidamente escondia as folhinhas de papel dobradas no bolso do avental. Oh! Que doce recordação esta!

O Coronel acaba de beber o café. Olha para o jardim. A chuva parou. O céu continua negro. Por certo a noite não será tranquila. Um cheiro vindo da cozinha começa a invadir a casa e afasta-o dos seus pensamentos. Que cheirinho apetitoso, pensa. O que será que a Rosa está a preparar na cozinha? É melhor ir espreitar – disse para si mesmo. O coronel pousa a caixa e levanta-se.

Quando abriu a porta da cozinha viu que Rosa tirava do forno um tabuleiro cheio de pastéis de nata queimadinhos e apetitosos.

Pastéis de Nata


Ingredientes:
0,5L de leite gordo
275g de açúcar
35g de farinha sem fermento
uma pitada de sal
1 noz de margarina
5 gemas
1 ovo
raspa de 1/2 limão
1 embalagem de massa folhada fresca


1. Colocar o leite ao lume com a margarina.

2. Misturar a farinha com o açúcar e o sal.

3. Quando o leite levantar fervura adicionar a mistura anterior mexendo muito bem com uma vara de arames. Deixar engrossar um pouco o preparado.

4. Retirar do lume e deixar arrefecer um pouco.

5. Adicionar o ovo e as gemas. Aromatizar com raspa de limão.

6. Forrar as formas com a massa folhada.

7. Colocar o creme nas formas. Não encher demasiado.

8. Levar ao forno pré-aquecido a 250ºC durante 12 a 15 minutos ou até ficarem dourados.


Esta receita de pastel de nata é do sítio Portugal Roteiro Gastronómico.


Rosa, sabia como o fazer feliz!

Com esta estória início uma viagem gastronómica por Lisboa. Um percurso feito através das memórias de um personagem, pautadas pelo sabor da vida, que nos conduzirá a alguns dos tradicionais locais da cidade de Lisboa e à sua gastronomia.

Sejam muito bem-vindos!

39 comentários:

  1. Isabel,estas natas estão com um aspecto divinal.
    Imagino de paladar,comia já uma.
    Beijos...

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  2. São tão bonssss estes pastéis!!
    Beijinho

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  3. Tu também soubeste fazer-me feliz agora Laranjinha, um verdadeiro delírio olhar para esses teus pasteis...

    Beijinhos!!

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  4. Belíssima ideia, a do roteiro gastronómico de Lisboa. Irei segui-lo certamente! :)

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  5. Irei seguir o roteiro gastronómico de lisboa! Que boa ideia. E estes pastéis estão um mimo!
    Um beijinho.

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  6. ADORO! Ficaram com um aspecto divinal!
    Beijinho com cheiro a canela!

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  7. Uma pitada de canela e de açúcar em pó por cima de um pastel dá direito a um sorriso certo. Que saudades de um pastel de nata. Boa partilha!

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  8. Que maravilha de aspecto têm esses teus pastéis!

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  9. Uma maravilha amiga de pasteis de nata, adoro as tuas estórias amiga, obrigada...bjokitass

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  10. Pastéis de Nata...não tenho palavras para descrever o quanto gosto. Estão lindos. Vou seguir viagem!

    Beijinhos

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  11. Meu deus esses pastéis de nata estão um pecado de delicioso! A primeira foto do post está me convidando para fazê-los :) Que delícia!
    Um beijo, Queila

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  12. Ando desejosa de experimentar e esta parece simples. Para quantos pasteis deu? Bjs

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  13. Histórias sobre Lisboa tinham que começar pelos pasteis... Que bonitos que ficaram!
    Babette

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  14. Agora ia um pastelinho de nata :) (vou ficar com esta receita debaixo de olho acho que vou experimentar
    Outro dia fiz uma queijada de Sintra que tb ficou muito boa http://obolodatiarosa.blogspot.com/2011/08/queijada-de-sintra.html
    Beijinho

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  15. Cheira me que vou apreciar esta viagem...Começa mesmo bem com estes pastelinhos de nata que quentinhos embalam o paladar!


    Bjoka
    Rita

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  16. Ai, que a laranjinha também soube-me fazer feliz....linda história e pasteis tão gulosos..

    Thank you!
    Annie

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  17. Quem não gosta de um delicioso pastel de nata? São sempre bem vindos. Para mim só falta a canela.
    Engraçado o desenho teu prato. Assim de repente pareceu igual ao meu serviço de chá, embora fosse difícil, nada é impossível, já que o meu ainda veio da USSR. :))

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  18. Excelente ideia esta das histórias, Laranjinha. Vou ficar atenta às próximas.

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  19. Força. Gostei da história!! Dos pasteis de nata só digo que ficaram excelentes e tenho muita muita pena de não os poder provar :))
    Vou aceitar o convite e seguir essa viagem...Até porque quero saber o que está dentro da caixa de madeira pintada do Coronel .Pois . Estou muito curiosa!!

    Um beijinho
    Under a Fig Tree

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  20. isso é dos sonhos! divinoooooo!!

    http://deliciasdaisa.blogspot.com/

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  21. Gostei da receita e deste novo "projecto". Vou ficar atenta!
    Beijos
    Teresa

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  22. Doce estória e condizer com esses deliciosos pasteis de nata, Laranjinha. Adorei esse momento de tranquilidade e de memórias passadas. Soube tão bem!

    Beijinhos

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  23. Boa gastronomia e boa literatura são ouro sobre azul!

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  24. bem estou ja a babar-me para o tecladoi
    que bonitos que ficaram ah
    beijinhos

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  25. Adoro! Não perco sempre que vou a portugal!!!
    Em casa já fiz algumas vezes, mas nunca ficam como os da pastelaria lá da terra ;)

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  26. eu tb. faço de vez em quando e são sempre benvindos, aqui em casa!! há pouco tempo publiquei uma versao do pantagruel e, tal como tu, rendi-me à massa folhada!! ;)
    beijinhos
    sofia

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  27. Adoro! E embora aqui os faça de vez em quando, n há como o sabor dos que como qd vamos a Portugal.
    Parabéns pela ideia do roteiro, ficamos à espera de mais.

    bom fim-de-semana!

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  28. E começas-te muito bem esse roteiro pela capital, com os deliciosos pasteis de nata.
    Que tentação.

    Bjs

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  29. Ilda Pinho,
    muito obrigada.

    Sandra Batista,
    cá em casa desapareceram num instante.

    Paula Mariana,
    é tão bom saber que fizemos alguém feliz! Muito obrigada.

    CNS,
    muito obrigada.

    Ginja,
    muito obrigada.

    Life in Paradise,
    Adoro canela e nos pastéis fica uma delícia. muito obrigada.

    Ana,
    muito obrigada.

    Queila,
    muito obrigada.

    Um beijinho e votos de bom fim-de-semana.

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  30. Adoro pasteis de nata, ja fiz em casa tambem, mas com leite condensado.
    Tenho de experimentar os de roteiro...yummy!

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  31. Gostei deste teu novo projecto e do mini conto, que como já te disse me faz lembrar a literatura sul americana, evoca memórias, imaginam-se vivências carregadas de saudade e ainda fica o mistério do que está dentro da caixa de madeira pintada e fechada à chave ;)
    Quanto aos pastéis de nata, aceito um de bom grado.
    Beijinho e fico à espera da próxima história.

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  32. Maria João,
    esta receita dá para 10 a 12 pastéis. É muito fácil de fazer. No forno, como os nossos não ultrapassam os 250ºC, podes utilizar durante uns minutos o grill do forno.

    Babette,
    uns dos sabores de Lisboa é sem dúvida os pastéis! Muito obrigada.

    Conceição,
    muito obrigada.

    Mané,
    esta receita faz-se bem.

    Ana Rita,
    muito obrigada. O sabor da próxima viagem pelas memórias deste Coronel já está escolhido. :)

    Annie,
    muito obrigada.

    Zé,
    que giro, tens um serviço que veio da URSS?! O prato comprei-o cá numa loja em Lisboa, com coisas muito giras que se chama At Home Hobby .

    Alexandra Prado Coelho,
    muito obrigada. O próximo sabor já está escolhido. ;)

    Under a Fig Tree,
    Muito obrigada pelo apoio. A viagem deste personagem irá continuar. Volta em Outubro.

    Isadora,
    muito obrigada.

    Teresa,
    muito obrigada. A continuação da história volta em Outubro.

    Susana,
    muito obrigada. Esta viagem de memórias e sabores vai continuar.

    JVC,
    muito obrigada pelas suas palavras.

    Moranguita,
    quem é que resiste a uns pastéis de nata quentinhos? :) Muito obrigada.

    Pami Sami,
    os pastéis ficam diferentes dos que se compram nas pastelarias. Os nossos fornos são diferentes, a massa folhada é diferente. Mas ficam muito bons e sabem tão bem!

    Sofia,
    eu também não resisto a um pastel de nata. Eu gostei de usar a massa folhada fresca. É daquelas coisas que eu acho que mais vale comprar do que nos colocarmos a fazer! :)

    Ana,
    eu também adoro os pastéis de nata. São um dos símbolos da nossa doçaria. A história vai continuar. Volta em Outubro.

    Sandra G.,
    muito obrigada.

    Ramona,
    com leite condensado ainda não experimentei. Também já fiz com natas em vez do leite. Mas um pastel quentinho com canela é mesmo uma delícia, não é?

    Moira,
    muito obrigada pelas tuas palavras de incentivo. A história vai continuar!

    Um beijinho e votos de bom fim-de-semana.

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  33. Pastéis de nata...que delícia.
    Comi não faz muito tempo,nunca havia experimentado,derretia na boca.
    E com a história fica mais delicioso ainda.
    Bjs

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  34. Olá!! Há tempos não apareço, mas ,enfim, olha eu aqui de novo!!rsrs.Ao passear pelo seu blog, fiquei estática diante dos pastéis de nata!!Senti perfeitamente o gostinho dessas maravilhas lá em Lisboa-Ao lado da Torre de Belém!!Mas, nada mais delicioso que os da Piriquita!!Saí de lá sorriso aberto, carregando muitos doces e, ainda assim, insatisfeita-pois queria carregar a doceria comigo rsrsr . Como costumo dizer em meu blog: "Gula é Pecado", mas esqueci disso por lá!! Adorei a história!!Vou "tentar"reproduzir os pastéis !!Bjs.

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  35. Isabel, só hoje passei aqui para finalmente ler o post. Gostei muito do texto!
    :)
    Bj grande.

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  36. Disse,
    muito obrigada. Os pastéis de nata são uma delícia e uma maravilha da nossa gastronomia.

    Diana,
    muito obrigada. Os pastéis de nata fazem-nos esquecer que a gula é pecado! :)

    Susana,
    muito obrigada.

    Um beijinho grande e boa semana.

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  37. Parece ser muito bons,mas.....para essa quantidade de ingredientes,para quantas tijelas????

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    1. Dá para aproximadamente 12 forminhas.

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