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quarta-feira, 23 de Março de 2011

Apanhar espargos, a origem de um desejo


A origem do meu desejo de apanhar espargos bravos começou, acredito eu, num texto de Francisco José Viegas publicado na já extinta Grande Reportagem, na sua coluna O Cozinheiro Ideal, que partilho aqui:

«"Estou tão contente por não gostar de espargos", diz uma menina num dos contos de Lewis Carroll. "Se gostasse teria de comê-los", responde o amigo. Os espargos são uma lenda campestre e volto a eles - verdes, colhidos no campo, só em meses de chuva. Eu sei que o leitor mal tem tempo para caminhar, quanto mais ir colhê-los ao campo, embrulhado em botas e mal protegido das intempéries. Nas estradas de província, no Douro ou no Alentejo (de onde vêm os melhores), há quem os venda aos molhinhos, a cinco euros, preço médio na sua época. Juntamente com as azedas do Douro, que crescem nos muros, e as melhores saladas de Primavera exigem (e, dirá o leitor mais afectuoso, as labaças para juntar aos ovos, as beldroegas para a sopa e para a salada, o cardo para a sopa), os espargos são mais do que essa lenda e a sua utilidade; a sua existência cumpre uma mitologia desregrada e saudável, mesmo que saibamos que responde pelo nome asparagus Lenuifolius, o que não nos deve afastar do essencial que é o seu sabor.
      Vamos, pois, aos asparagus Lenuifolius. Lavem-se os espargos do molhinho, verdes e fibrosos, corte-se a parte mais rija do caule e mergulhem-se em água por cinco minutos (podem juntar-se umas gotas de vinagre durante o banho de imersão). A seguir vem o alho, de que devem picar-se três dentes, que deve estar a aquecer numa frigideira (de ferro é preferível, senhores). Juntem-se os espargos quando o alho amarelecer sem queimar, e deixe-se frigir o conjunto enquanto se batem os ovos, com sal, pimenta e mais nenhuma outra invenção - são eles que devem amaciar os espargos, daí a menos de cinco minutos, até ficarem apenas cremosos. É uma benção, desde que o pão com que são comidos seja de boa qualidade. Depois disto, qualquer espargo de lata sabe a salbutamol ou benzofluoranteno. Sabe o que é?»

As crónicas sobre gastronomia de Francisco José Viegas, na Grande Reportagem, fascinavam-me. Adorava as palavras, as receitas, o modo como nos transmitia a sua paixão pela comida. Não sei se continua a escrever sobre gastronomia em alguma publicação nacional - se souberem, avisem-me s.f.f.! - mas eu guardei cuidadosamente as suas crónicas. Com a mudança de casa tive que me desfazer da colecção de revistas da Grande Reportagem, mas as crónicas do Francisco José Viegas dos números em que ele colaborou foram resgatadas e guardadas. Ao reler novamente a crónica sobre os espargos, decidi que seria este ano, o ano em que iria ao campo apanhar espargos. E assim nasceu um desejo, que entretanto foi concretizado pela mão da Cristina Lebre, em Estremoz.


Mas da crónica do escritor Francisco José Viegas surgiu também a vontade de fazer ovos com espargos bravos que tão deliciosamente descreve. Quando visitei o mercado de Estremoz, não resisti e comprei um molho de espargos na banca do senhor Henrique.



Ingredientes:
1 molho de espargos-bravos
6 ovos
3 dentes de alho
sal e pimenta preta de moinho q.b.
manteiga
fatias de pão para servir

1. Lavar os espargos. Retirar parte do caule duro.

2. Escaldar os espargos durante cinco minutos em água a ferver.

3. Picar os dentes de alho.

4. Colocar a manteiga numa frigideira e levar ao lume. Assim que a margarina derreter adicionar os dentes de alho e deixar frigir um pouco, sem que o alho queime.

5. Adicionar os espargos cortados grosseiramente. Deixar cozinhar um pouco.

6. Bater os ovos com sal e pimenta a gosto. Juntar os ovos com os espargos na frigideira. Mexer e deixar cozinhar até os ovos estarem prontos.

7. Servir os ovos mexidos com as fatias de pão.


Uma benção! Os espargos ficam crocantes, estaladiços, proporcionando explosões de sabor. Em relação à receita original apenas substituí o azeite pela manteiga.
Eu já tinha experimentado fazer estes ovos usando um molhinho de espargos de compra e realmente não tem nada a ver. Então com espargos de lata nem se fala!

22 comentários:

  1. Que maravilha! Adoro espargos e quem me dera ir apanhá-los.
    A tua sugestão agradou-me muito, tenho que a fazer. Fiz um destes dias uma fabulosa açorda de espagos, também é divinal :)

    Beijocas***

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  2. Eu adoro espargos selvagens... costumo fazer uma bela de uma omelete com eles! Também já fiz pataniscas.
    Esta tua receita está estupenda.
    Excelente apresentação.
    Gostei muito do teu blog.
    Beijinhos

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  3. Ai Laranjinha, como fico a suspirar por esses espargos. Infelizmente por aqui não espargos bravos, por isso resta-me ficar a namorar por aqui este petisco. As crónicas do Francisco José Viegas eram uma ode ao que de mais simples e saboroso podemos encontrar nas cozinhas portuguesas (ele escreve maravilhosamente). Era leitora assídua da GR e foi com muita pena que vi a publicação chegar ao fim. Também tenho algunas recortes dessas crónicas colados no meu livros de receitas.
    Beijinhos

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  4. Que bom e tão apetitoso, mais um post magnifico Laranjinha, obrigado por partilhares...

    Beijinhos!!

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  5. eu espargos frescos nunca provei mas devem ser tao bonssssssssss
    beijinhos

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  6. Isso é que é uma omelete de espargos!!!!

    O aspecto não engana nada ;)

    Bjocas

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  7. Que delicia, espargos selvagens são os meus preferidos, então numas migas, hummmm
    Essas imagens estão perfeitas, tal como a confeção
    Um beijinho

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  8. Ele fez uma série de Tv por onde viajava e falava de gastronomia que passou há uns tempos na RTP2 (lá estou eu outra vez, mas é verdade!), e achei interessantíssimo. Nunca provei espargos, eu aqui tão perto do Douro mas sem o conhecer na totalidade :)

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  9. Adorei esse post! E agora também quero colher aspargos...Beijo!

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  10. qué hermosos espárragos nos muestras frescos son muy ricos y frescos son una adoraciónado y más preparado con una buena receta tuya.
    Qué fotos más preciosasa nos muestras de tu bello país me quedé encantada,Brasil es mágico para mí,me quedo en tu lindo blog y seguir observando tus bellas recetas y las bellas fotos,abrazos y muchas bendiciones.

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  11. Sou natural da região de Estremoz e conheço muito bem esse mercado! Estou desejosa que chegue a época dos morangos naturais para ir lá comprar e fazer muitas compotas.
    Quanto aos espargos selvagens é algo muito apreciado lá por casa: omelete de espargos, mioleira de espargos ( ovos mexidos com espargos e "miolos"), feijão com espargos ou até mesmo sopa de espargos! Outra iguaria que é comida por cá nesta altura são os "tortulhos", que são uns cogumelos que estão enterrados na terra e quem conhece sabe identificar. Esses também são consumidos de várias maneiras: omoletes, grelhados, entre outras. Deves ter visto também no mercado de Estremoz, é costume venderem-se por lá.
    beijinhos laranjinha!

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  12. Cara Laranjinha,
    Vim cá parar através da Tertúlia de Sabores, a propósito do passatempo das receitas Conta-me Como Foi. Hoje resolvi passear por este blog maravilhoso e fiquei absolutamente deliciada com a Missão em Estremoz. Imagino que tenha sido, realmente, extraordinário e confesso-me cheia de inveja!
    Vi, também, a lista de desejos para 2011 e, a esse respeito, tenho duas coisas a dizer: espero que consiga, realmente, realiza-los todos (está no bom caminho) e, se lhe apetecer comer a tal francesinha no Porto, diga qualquer coisa. Teria um enorme prazer em lhe mostrar onde :-)
    Parabéns pelas receitas e pelas histórias deliciosas que as acompanham.

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  13. a refeição que nos apresenta hoje é uma constante cá em casa. mistura divina diria eu..

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  14. João,
    cá em cada adorámos. Os espargos ficam uma delícia. Está visto que tenho que ir mais vezes ao Alentejo. :)

    Helena,
    muito obrigada pela visita. Espero que volte. As sugestões para a francesinha são bem-vindas. Este ano já satisfiz o meu desejo, mas conto voltar ao Porto. :)

    Luna,
    eu fiquei fã dos espargos bravos. Uma maravilha. Os "tortulhos" não sei se cheguei a ver. Vi um senhor com um cogumelo num prato e uma balança. Mas nem cheguei a perceber bem o que era.
    Adorei as sugestões para utilizar os espargos.

    Rosita,
    muito obrigada pela tua visita.

    Marina Mott,
    apanhar espargos é mesmo uma emoção. Eu adorei. Espero que consigas apanhar também.

    Ameixinha,
    sabes que fiquei curiosa com as azedas do Douro, sabes o que é?

    Gisela,
    migas de espargos ... hummm... deve ser divino. :)

    Isa,
    é mesmo. E fica uma delícia.

    Moranguita,
    os espargos bravos acho que têm mais sabor do que os outros.

    A dona da Cozinha,
    Obrigada.

    Paula Mariana,
    muito obrigada pelo comentário e pelo incentivo.

    Carla,
    não conheço ninguém que actualmente faça crónicas sobre comida como o Francisco José Viegas. Eram uma delícia.

    Cidália,
    pataniscas de espargos! Adorei a ideia. Acho que vou experimentar.

    Cenourita,
    açorda de espargos também me agrada muito. Obrigada pelo comentário.

    Um beijinho.

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  15. Assim sem pesquisar nada, se a emmória não me falha, azedas são uma espécie de enchido tipo alheira ou farinheira mas eu nunca provei :) Não sei se estou a meter a pata na poça mas vou tentar saber acerca disso.

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  16. Gostaríamos de a convidar a participar no passatempo: "Mycook - o seu segredo de Primavera", no facebook. Participe e se ganhar a sua receita constará no nosso próximo livro de receitas.

    Obrigada,


    Mycook Premium
    O meu segredo
    [Consulte as regras em: https://www.facebook.com/notes/mycook/passatempo-mycook-o-seu-segredo-de-primavera-regras/200789619940206]

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  17. Laranjinha, se eu não gostasse de Espargos, acho que ficaria a gostar só pelas fotos! Depois com esse excerto do Francisco José Viegas, foi a "cereja em cima do bolo"! Por onde andará esse grande Senhor?...
    Cá em casa só eu é que aprecio, mas como o meu filho vive no Alentejo, dá para matar saudades de vez em quando! Bela postagem! Parabéns. Bjs. Bombom

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  18. Voltei só para acrescentar:
    Sabes que os Espargos são um poderoso anticangerígeno?
    Há quem os tome diariamente como um batido junto com sumos para curar o cancro. São uma boa ajudar para eliminar os radicais livres do sangue. Bjs. Bombom

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  19. Gostei da "conversa". Bem comer também é bem conversar, bem gozar a vida. E, quando eu era menino, boa parte das conversas de serão de família era sobre bem comer e troca de segredos culinários, troca por vezes bem divertida de regateio aciganado.

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  20. Ameixinha,
    obrigada. Vê se descobres esses enchidos aí pelo Norte! :)

    Bombom,
    eu adoro a escrita sobre comida do Francisco José Viegas, que descobri com a Grande Reportagem. Acho que faz falta mais crónicas sobre cozinha nas nossas publicações.

    JVC,
    obrigada pelo comentário.

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  21. Experimente perfumá-los com umas folhinhas de poejo! ;)

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