segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Creme de abóbora picante com chocolate e uma dose de magia


O meu nome é Anouk e estou cansada de andar de um lado para o outro. A minha mãe, Vianne Rocher, quando sente a força do vento do Norte, irmão de Nótus e de Zéfiro, na janela do quarto, a bater, a bater, já não consegue descansar. Começa a andar irritada. Inquieta.

No primeiro dia, antes de partirmos, eu notei logo que alguma coisa não estava bem. Primeiro foram os mendiants que a mãe tanto gosta de fazer. São os seus preferidos. Com uma camada de chocolate fina, passas de uva maceradas em rum, amêndoa, uma noz, uma violeta e uma rosa cristalizada. São deliciosos. Fazem-me lembrar os dias de Verão com noites frescas, o cheiro a relva molhada, a brisa do rio que nos batia suavemente no rosto, quando estávamos, na aldeia de Lansquenet-sur-Tannes com Roux, por quem a mãe tinha um fraquinho. Ou pelo menos corava sempre que ele olhava para ela. Eu achava tanta piada ao seu embaraço. Naquele primeiro dia a mãe não acertava com a camada de chocolate. Dizia que não a conseguia fazer o suficientemente fina de modo a ficar estaladiça. Para mim, era apenas impressão dela. Alguma coisa começava a não estar bem.

Nos dias que se seguiram o vento continuou imperiosamente a fustigar as janelas e a mãe começou a ficar cada vez mais nervosa. Num dos dias, mesmo assim, acordou bem disposta e foi para a cozinha. Preparou um tabuleiro de mendiants du roi, fatias de laranja cristalizada embebidas em chocolate escuro e polvilhadas com folha de ouro comestível. A mãe é uma feiticeira do chocolate. Os seus mediants eram tão bonitos que até dava pena comê-los. Quando tudo parecia correr bem, Zozie, a rapariga dos sapatos vermelhos que nos ajudava na Chocolaterie parte o prato de Murano azul com uma florzinha no rebordo. Esse prato tinha sido uma oferta de Roux antes de partirmos para Paris. E a mãe, acho que viu aí um sinal. Correu para o quarto e sei que foi lançar as cartas.

Qualquer coisa pode despertar o vento. Um gesto. Um sinal. Uma palavra. Tudo aquilo que possa alterar o equilíbrio. Por isso há que voltar de novo à estrada. Isso apavoráva-me. Sempre a mudar de sítio. De um lado para o outro. A deixar os amigos. Ali em Paris tinha amigos. Gostava tanto quando o Jean-Loup nos visitava e começava a tirar fotografias. O seu chocolate preferido era o de amêndoa amarga. Isto é uma das particularidades da mãe, consegue sempre adivinhar o chocolate preferido das pessoas. Jean-Loup fazia-me rir e era divertido. Acho que gostava muito dele. Para piorar a situação, Rosette, a minha meia irmã, andava sempre irrequieta. Parecia que só fazia asneiras e quem arcava com as culpas de tudo era sempre eu.

Sei que a mãe tentou parar a força do vento. Mas estávamos em Dezembro, o último mês do ano e como a mãe diz, «Dezembro, cuidado; Dezembro, desesperado». Dezembro tem uma força especial diferente de qualquer outro mês. É uma altura de sonhos, de luzes, de Natal, de partilha, dos sorrisos das crianças a pensar nos presentes, da esperança das famílias. E isto altera tudo. A mãe, mesmo sabendo que não devia, ainda tentou alguns pequenos truques de magia, sal espalhado à porta, uma bolsinha de seda com laranja seca, mas a força das sombras e do vento não a deixaram em paz. Tinha que partir.

Mas qual é o segredo? Mas que forças nos empurram e obrigam a partir? Será um demónio? A Bruxa má da casa de gengibre? A Rainha do Inverno? A mãe diz que o vento lhe segreda que a magia desapareceu. Que é preciso recomeçar num outro lugar. Uma e outra vez. Percebi que íamos partir novamente quando numa noite, com a mãe e Rosette a dormir, desço à cozinha e vejo os tachos de cobre e de esmalte, a placa de granito onde a mãe molda o chocolate fundido, os termómetros do açúcar, as formas de plástico e de porcelana, as espátulas, as escumadeiras, tudo devidamente embrulhado e pronto para ser guardado.

Nessa noite, o vento não parou. Soprava de uma forma agreste. Assobiava nas frinchas das portas e janelas como um animal ferido. Para a mãe tinha chegado a hora. Acordou-nos. Vestiu-me com a sua capa vermelha, agarrou em Rosette e num saco grande que estava pronto e bem fechado. Saímos. O vento não nos largou. Abanáva-nos. Varria-nos como se fossemos folhas caídas no chão. A mãe agarrou-nos bem, sei que estava com medo de nos perder. Ainda não tínhamos chegado ao fim da rua quando um homem se aproxima de nós. Como estava escuro, só o consegui reconhecer pelos cabelos ruivos, presos na nuca. Roux esperava por nós. Desta vez, a mãe preparou tudo e isso deixou-me feliz.

Hoje chegámos a um novo local. Parece simpático. A cidade tem uma luz especial. Ao longe vejo um castelo e um rio, o Tejo. A mãe preparou para nós uma sopa de abóbora picante com chocolate. Esta é a receita que costuma fazer quando mudamos de sítio e ela se sente feliz. A abóbora é um fruto mágico que combinado com o fogo do picante nos dá coragem. O chocolate ajuda as pessoas a revelar a magia que têm dentro delas.

O céu está azul e o vento não se sente. Com Roux, Rosette e a mãe, sinto pela primeira vez que tenho uma família. Acho que vou gostar deste novo sítio.


Creme de abóbora picante com chocolate


Ingredientes:
900g de abóbora cortada em pequenos cubos
2 cebolas cortadas em meias luas
7 dentes de alho
sal e pimenta de moinho q.b.
1dl de azeite
1 cubo de caldo de legumes (biológico)
5dl de água quente
1 colher de chá de harissa
chocolate negro ralado com 70% de cacau para servir


1. Num tabuleiro colocar a abóbora, as cebolas e o alho. Temperar com sal e pimenta a gosto. Regar com o azeite e levar ao forno previamente aquecido a 200ºC durante 40 minutos.

2. Colocar os legumes assados numa panela. Adicionar o cubo de caldo de legumes, a harissa e a água quente. Triturar a mistura com a ajuda da varinha-mágica.

3. Servir o creme com chocolate ralado.


Com esta história e receita participo no evento Chocolate e Picante: Um desafio de receitas com histórias dentro, organizado pela minha amiga Suzana do blogue Gourmets Amadores.

A história é inspirada em personagens dos livros Chocolate e Sapatos de Rebuçado, romances da escritora Joanne Harris. Este creme de abóbora foi feito a partir de uma receita encontrada no blogue Local Kitchen Blog.

Espero que gostem!

20 comentários:

  1. Adorei a narrativa e a receitinha! Ambas excelentes! :')

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  2. Olá MissB,
    muito obrigada. A combinação da abóbora com o chocolate em sopa é pouco usual, mas fica muito agradável. Acho que é uma receita que combina bem com o universo dos romances da Joanne Harris. Vianne Rocher de certeza que teria esta receita no seu reportório. :)

    Um beijinho e votos de boa semana.

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  3. Na realidade achei a combinação pouco usual o que me leva a...já sabes... :) :) qualquer dia experimentar
    Beijinho
    Mané

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  4. Olá Mané,

    experimenta. Com chocolate negro, picante e o aroma adocicado da abóbora, este creme fica delicioso. Pouco usual, claro, mas óptimo! ;)

    Um beijinho.

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  5. Minha querida Laranjinha,

    É uma delícia saber novidades destas personagens que também fazem parte do meu imaginário. Espero que eles gostem tanto de Lisboa como nós e que esta sopa seja o princípio de uma aventura deliciosa. Obrigada pela participação. Gostei tanto! :))

    Beijo grande e boa semana*

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  6. Gostei! Gostei muito .... Da história e da SOPA
    "...A abóbora é um fruto mágico que combinado com o fogo do picante nos dá coragem. O chocolate ajuda as pessoas a revelar a magia que têm dentro delas..." Acho que se essa sopa for feita aqui no Alentejo a magia também resulta. É tudo Portugal. O nosso Portugal...
    Um beijinho
    A Comadre

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  7. hhhhhhmmmmm, abóbora e chocolate é uma combinação maravilhosa para tartes de modo que fiquei muito curiosa para experimentar esta sopa. As cores estão lindas e muito convidativas :)

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  8. Laranjinha, sabes que quando vi o anúncio deste desafio no blog da Suzana, me lembrei imediatamente dos livros Chocolate e Sapatos de Rebuçado da Joanne Harris? Adorei o texto e a sopa, bem diferente do usual.
    Um beijinho.

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  9. Uma história perfeita a acompanhar uma bela sopa :)

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  10. Uma sopa invulgar(pelos menos para mim).
    Fiquei com vontade de experimentar a junção do doce e picante na sopa.
    Bjs

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  11. bem bonita a historia nunca comi assim a abobora mas parece ser muito bom parabens beijinhos

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  12. Suzana,
    fico muito contente em saber que gostaste. Ao ler a iniciativa achei que combinava com imaginário do Chocolate e de Vianne Rocher. Acho que eles vão adorar Lisboa. :)

    Querida Comadre,
    às vezes acho impressionante as nossas semelhanças, especialmente pela frase que citas! Obrigada. Esta sopa feita no Alentejo deve ficar uma maravilha. Cheia de magia e um aroma delicioso.

    Ondina,
    a combinação desta sopa é pouco usual, mas achei que era a indicada para o evento e combinava muito bem com o imaginário de Joanne Harris, de quem sou fã, especialmente dos livros em que a autora mistura a vida e os sabores. Na minha opinião, o segredo desta sopa está na combinação da suavidade da abóbora com o picante e o chocolate, sobressai no final, com um ligeiro amargo. Experimenta. :)

    Ginja,
    muito obrigada. Eu adoro os livros da Joanne Harris que falam de comida. A sopa é uma combinação surpreendente e inovadora. Mas resulta muito bem.

    Conceição,
    este ano ando fã das sopas de legumes assados. E esta no fundo é mais uma, mas com um toque muito especial do picante e do chocolate. O chocolate, coloquei sensivelmente três a quatro colheres de chá de chocolate ralado para um bom prato de sopa, e dá um travo ligeiro amargo no final. Experimenta.

    A paixão da Isa,
    a abóbora assada em sopas fica realmente deliciosa. Experimenta. Acho que não te vais arrepender.

    Um beijinho a todas e muito obrigada pela vossa visita.

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  13. Isso é que foi coragem, juntar abóbora e chocolate numa sopa, pessoalmente fico curiosa pois deve ser muito boa. Já usei chocolate em comidas salgadas e gostei bastante.
    Parabéns, pela sopa e pelo texto.

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  14. Yummy!
    Me parece uma delícia!
    Acho que estou precisando de uma sopa dessas! ;-)
    Beijos

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  15. Moira,
    muito obrigada. O chocolate amargo combina bem com o picante. Achei que poderia ser uma receita da Vianne! :)

    Elke,
    esta é uma sopa com uma combinação pouco usual, mas que resulta. E em dias frios, ajuda a aquecer.

    Um beijinho.

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  16. Que lindo texto e receita. Adorei! beijos

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  17. Ora, ora... temos magia aqui por perto. Espreito para ver a sombra de Pantoufle... parece-me que passou sorrateiro por entre as folhas que rodopiam agora suavemente. Hummmmmmmmm... cheira-me maravilhosamente bem. Que maga da cozinha preparou este manjar de arrebatar os sentidos?

    Adorei Laranjinha. Adorei a receita e obviamente a história. Boa aliança de cores, cheiros e "sentires". As verdadeiras feiticeiras são assim. Roubam-nos tudo. Do estômago à alma. :)

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  18. Adorei a história, será que ela vão conhecer a laranjinha? Ai estão duas boas personagens para nos fazer um roteiro gastronómico de Lisboa e quem sabe do país!

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  19. Rute,
    muito obrigada. Um roteiro gastronómico de Lisboa, quem sabe ... :)

    Cristina Basílio,
    o teu comentário é delicioso e inspirador. Muito, muito obrigada.

    Um beijinho.

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  20. Marmita,
    muito obrigada.

    Um beijinho.

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