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segunda-feira, 17 de Setembro de 2012

Um jantar de estrelas no restaurante Feitoria


O modo como vivemos e sentimos está intimamente relacionado com tudo aquilo que valorizamos, com a nossa hierarquia de valores, e a maneira como gerimos as nossas emoções. Por isso, é normal todos nós vivermos e sentirmos os acontecimentos de maneira diferente. E aquilo que é muito valorizado por uns, poderá não o ser por outros. E há coisas que numa altura são-nos mais ou menos indiferentes mas que com o tempo aprendemos a valorizar como verdadeiramente especiais. A vida é mesmo assim, vivemos das diferenças, de múltiplos modos de estar e de ser. Mas o mais importante de tudo, é sabermos aproveitar o que nos acontece.

Para mim, também há coisas que valorizo mais do que outras no meu dia-a-dia. Mas, existem momentos, coisas especiais que nos acontecem, que nos batem à porta, atravessam o nosso caminho, e que de acordo com o que achamos importante, é impossível não valorizar e apreciar como algo verdadeiramente único, quase como a ideia de concretizar um sonho de longa data. Quando recebi o convite para jantar no dia 7 de Setembro no restaurante Feitoria do Altis Belém Hotel & Spa no âmbito do evento Rota das Estrelas, eu senti-me uma verdadeira privilegiada. Senti-me como alguém a quem tinham entregue um bilhete de lotaria premiado, que lhe daria acesso a um momento único, com a oportunidade de viajar pelo céu e falar com as estrelas. Ia ser muito bom voltar ao Feitoria.

E foi com enorme entusiasmo, mas sem esperança, que no início do jantar referi o meu desejo de visitar a cozinha do Feitoria em plena azáfama. Como se fosse possível entrar de forma invisível na cozinha e ver como trabalhava a equipa, como era dirigida, como fervilhava, como se respirava naquele ambiente numa noite como esta, com o restaurante cheio e em que o jantar era feito por vários chefs estrelados. Os chefs Cordeiro, nosso anfitrião, Hans Neuner do restaurante Ocean, onde já tive o privilégio de jantar também numa noite estrelada, Ricardo Costa do restaurante The Yeatman e Vincent Farges, do restaurante Fortaleza do Guincho. E como não somos escravos das circunstâncias, os nossos sonhos podem tornar-se realidade no espaço de um simples estalar de dedos. Não sei se conseguem sentir ou imaginar o meu entusiasmo quando, depois de terminar o prato de peixe, nos convidam a ir à cozinha, ver a preparação do gin tónico com limão, da autoria do chef Cordeiro e da sua equipa, que nos ia ser servido de seguida. Quando menos esperamos, o inesperado acontece. A vida é mesmo maravilhosa.

Na cozinha sentia-se o fervilhar de uma certa tensão, pautado pela responsabilidade de querer fazer bem. A azáfama era enorme, mas acontecia de forma organizada, cada um tinha um papel e sabia exactamente o que tinha que fazer. Foi muito especial ver o chef Cordeiro a dirigir a sua equipa. Digo-vos que é com a mesma garra e postura com que nos habitou nos programas de televisão, em que participa. A equipa, num pequeno espaço, ia distribuindo a espuma pelas taças colocadas num tabuleiro sobre a supervisão do chef, que mantinha o ritmo e sempre que necessário dava as devidas indicações. Eu aventurei-me um pouco mais, e ainda vi o chef Vincent Farges, ao fundo, concentrado no seu prato. Este jantar estava a ser realmente muito especial.

O jantar foi antecedido por um cocktail no espaço exterior ao restaurante onde nos foi servido presunto Joselito, champagne Pommery brut, Vale das Areias rosé 2011, moscatel roxo rosé Domingos Soares Franco e um gaspacho com esferificação de azeitona.

Já sentados, fomos recebidos pela saudação do chef, miolo de vieira com puré de ervilhas, com chouriço de Vinhais. As vieiras combinam na perfeição com as ervilhas e o toque do chouriço faz-nos lembrar sabores bem portugueses.


Pela mão de Hans Neuner chegou-nos um prato muito apelativo, barriga de atum dos Açores com fígado de ganso fumado em pó, cogumelos nori, redução de alho preto e cubos de chuchu. Tal como um pintor joga com as cores, Hans compôs um prato a lembrar uma pintura colorida com todos os seus elementos geometricamente alinhados. Em que cada um foi pensado cuidadosamente, desde a forma, a cor e a textura, para combinar com os restantes, num perfeito equilíbrio. Este foi um prato inspirador, em que a textura crocante do chuchu cru foi uma surpresa assim como o alho preto em puré, tão suave. O alho preto é obtido através de um processo de fermentação e é muito usado na cozinha asiática. O vinho que acompanhou esta entrada foi Casal Santa Maria branco reserva 2010 (da zona Colares).


Ainda nas entradas, fomos presenteados com falsos raviólis de camarão em caldo dashi, com fatias crocantes de raiz de lótus, flores de jasmim, cogumelos e coentros. Um prato perfeito. Equilibrado e cheio de sabor. O vinho escolhido foi um Vale das Areias Branco Sauvignon e Arinto 2011.


O prato de peixe foi da responsabilidade do chef Ricardo Costa, que nos serviu dourada do mar, sautée com crosta de tomate, lula recheada com foie gras, polenta cremosa, torresmo de peixe e aneto. Um prato surpreendente. Adorei o pormenor da pele do peixe frita, crocante. O vinho servido para acompanhar este prato foi Redoma branco reserva 2010.


O chef Vincent Farges serviu-nos peito de pata barberie escalfada e assada, cenouras da Quinta do Poial glaceadas com galanga, puré de cenoura-toranja e molho do assado. Na mesa, surgiu a dúvida, porquê pata? E o que seria a galanga? A carne era tenra, suculenta e no puré notava-se a presença cítrica da toranja. Este foi um daqueles pratos que de certo não vou esquecer. Notável! Bebemos um Quinta do Grifo tinto 2008 a acompanhar este prato.


O chef Cordeiro e a sua equipa trouxeram-nos como pré-sobremesa cornetos recheados com petazetas, que depois de descobertas, explodem na boca como fogo de artifício.

A sobremesa foi lasanha doce, feita com tapioca, parfait de morango, sorvete e merengue de frutos vermelhos, com mirtilos e amoras frescas. O chef Ricardo Costa não fez apenas uma sobremesa, fez uma pintura com variações de frutos vermelhos, em tons de cor de vinho, e com diferentes texturas. A sobremesa foi acompanhada por um vinho do Porto, Rozés Vintage 2009.


A acompanhar o café, ainda nos serviram uns pequenos miminhos doces. Eu não resisti aos macarons.

Depois do jantar tivemos a oportunidade de conversar um pouco com os chefs, estrelas da noite, juntamente com os outros convidados e clientes. Assim que conseguimos falar com o chef Vincent Farges, não hesitámos em perguntar-lhe sobre o porquê da escolha da pata barberie e sobre a galanga. O chef explicou-nos que a qualidade desta carne é muito boa e que o segredo está na técnica. Ao descobrir que não sabíamos o que era galanga não hesitou em pedir que nos trouxessem um pedaço para vermos. Perante a oferta se queria trazer um bocadinho, disse prontamente que sim. Em casa, no dia seguinte, experimentei logo uma receita que o chef me ensinou e com quem adorei conversar. Triturei duas maçãs granny smith com um pedaço de galanga. Juntei água bem fresca e ficou uma bebida muito agradável.


Nesse dia ao sair do Feitoria, senti que tinha participado numa noite especial e única. Quem valoriza este tipo de coisas, penso que me poderá compreender. Não é todos os dias que se come num restaurante em que o jantar é preparado por quatro chefs premiados com estrelas Michelin. É isto que a vida tem de melhor. Podermos aproveitar cada bom momento que ela nos proporciona, com o coração aos pulos de entusiasmo. Para mim, ficou a vontade de voltar ao Feitoria, e até quem sabe, à cozinha, de jaleca posta para aprender com quem sabe.

[ Fotos da autoria e cedidas por Paulo Barata / GUERRILLA Food Photography ]


Outros olhares sobre este jantar:
- Um jantar no Feitoria em noite de estrelas por Alexandra Prado Coelho;
- Estrelas que brilham muito alto por Duarte Calvão.

5 comentários:

  1. Parabéns pelo post! E parabéns aos fotógrafos pois, não é novidade, mas as fotografias são soberbas!!

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    1. Olá Vera,
      muito obrigada.

      Um grande beijinho para ti.

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  2. não foi um jantar! foi um sonho de banquete! privilegio!

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  3. Esta foi uma oportunidade única, porque irrepetível. Juntar todos esses chefs michelin numa só cozinha e poder deliciar-se com os seus piteús deve ter sido um jantar de sonho.
    Que desfile de pratos!
    Um abraço.
    Patrícia

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