segunda-feira, 24 de Outubro de 2011

Bacalhau à Brás e os sabores de Lisboa


O Coronel vinha pelo menos uma vez por semana a Lisboa, nos primeiros anos de reforma. Mas agora, sentia que a idade já pesava. Sair, deslocar-se, tudo lhe fazia confusão. Se saía, estava sempre pronto para regressar a casa. Começava numa inquietação desenfreada. E porque já era tarde e porque já se estavam a demorar e assim por diante. Regressar era sinónimo de tranquilidade. Paz. Gostava de estar no mundo que conhecia, que sentia como dele e que ilusoriamente dominava. Na sua cabeça, aí, nada de mal lhe podia acontecer. Em casa ficava bem.

Quando era novo, isso sim, não saía de Lisboa. Nos primeiros tempos de quartel chegou a ter um quatro alugado num prédio azulejado de três andares na rua dos Bacalhoeiros, por indicação de uma sua tia, devota de Santo António e presença assídua nas missas da .

Aproveitava, na altura, todas as folgas para viver a cidade. Passear na Baixa. Contemplar o Tejo. Ver a chegada e partida dos barcos. Sentir a luz de Lisboa. Fazer compras na rua do Ouro, subir ao Largo do Carmo pelo elevador de Santa Justa. Quantas noitadas passou com o José Barrote, o Eduardo Canelas e o Manuel Salgueiro, este último que iria, anos mais tarde, tristemente morrer ao seu lado noutra parte do mundo. Amigos das jantaradas na tasca do Genuíno Pereira, ao Bairro Alto.

A tasca de balcão alto com tampo de mármore, não tinha mais do que cinco mesas para comensais. As prateleiras e todos os espaços que podiam ser preenchidos ostentavam garrafas de aguardente, vinho do Porto, licor Beirão, emblemas do Benfica e do Sporting, cartazes de touradas no Campo Pequeno e bem visível, um Zé Povinho com o seu característico gesto. Assim que se entrava o cheiro ligeiramente azedo a vinho fermentado misturava-se com os aromas dos tremoços cozidos, dos amendoins servidos com casca e dos fritos feitos na cozinha.

Depois de se sentarem, Genuíno colocava na mesa um jarro de vinho tinto do Cartaxo e um pires com azeitonas pretas galegas temperadas com alho picado miudinho e azeite, que acompanhadas com pão fresco e estaladiço sabiam a mel. Era Genuíno quem as curava com ervas e casca de laranja. Depois vinha o melhor. Uma travessa de bacalhau à Brás salpicado com as galegas bem pretinhas e salsa. Magnífico. As mãos de Maria Pequena, a cozinheira da casa e mulher de Genuíno, eram de louvar e faziam milagres na cozinha. Era impressionante, nunca se lembra de ali comer um prato mal feito. A meio do bacalhau já era preciso reforçar os copos. "Ó Genuíno, não te esqueças do vinho!", gritavam muitas vezes em uníssono para o balcão, sempre bem dispostos. Genuíno, homem de poucas falas, com um pano dobrado ao ombro e a caneta na orelha lá respondia que sim com a cabeça.

Ao lembrar-se destes momentos da sua vida, o Coronel sentiu uma saudade imensa de comer um bacalhau à Brás. Será que Rosa acederia ao seu pedido?

Bacalhau à Brás


Ingredientes:
500g de bacalhau demolhado (3 postas)
650g de batatas
1dl de azeite
3 cebolas
4 dentes de alho
10 ovos
sal e pimenta
salsa picada
azeitonas pretas
óleo para fritar


1. Limpar o bacalhau de peles e espinhas. Desfiá-lo com as mãos.

2. Descascar as batatas. Cortá-las em fatias finas e depois em pequenos palitos. À medida que se vão cortando, colocam-se em água.

3. Colocar o óleo numa frigideira e levar ao lume. Secar as batatas cortadas em palha num pano antes de colocar a fritar. À medida que se tiram da frigideira, deixar a escorrer sobre papel absorvente para ficarem sequinhas.

4. Colocar o azeite num tacho juntamente com o alho picado e as cebolas cortadas em meias-luas ou às rodelas. Deixar cozinhar até a cebola quebrar.

5. Adicionar o bacalhau desfiado. Mexer e deixar cozinhar uns minutos.

6. Juntar a batata-palha frita. Envolver.

7. Bater os ovos. Temperar com sal e pimenta a gosto.

8. Com o lume baixo, juntar os ovos ao preparado anterior. Mexer até estarem cozinhados, mas sem ficarem secos.

9. Servir o bacalhau salpicado com azeitonas pretas e salsa picada.


Este bacalhau fica maravilhosamente delicioso. Quem quiser fazer uma versão mais rápida poderá optar por batata-palha já frita, de compra. Fica bom, mas não é a mesma coisa!

Esta história faz parte de uma viagem gastronómica por Lisboa onde se inclui:
- Pastéis de nata e os sabores de Lisboa.

18 comentários:

  1. Adoro este prato de bacalhau,ficou lindo.
    Bjs.

    ResponderEliminar
  2. Os ovos eram biológicos? É que a julgar pela corzinha desse bacalhau diria que sim. Está divinal.

    ResponderEliminar
  3. Ilda,
    eu também adoro bacalhau à Brás, mas ao tempo que não fazia. Ficou muito bom.

    Su,
    sim, os ovos são biológicos, por isso é que o bacalhau fica tão amarelinho.

    Um beijinho e boa semana.

    ResponderEliminar
  4. Adorei a estória...e o bacalhau está mesmo bonito, tão amarelinho. Eu penso que a maneira mais saborosa de fazer o bacalhau à Brás, é justamente utilizar o bacalhau cru, que vai puxar o sabor do azeite.bjs

    Ana
    estavento.blogspot.com

    ResponderEliminar
  5. Um bacalhau á brás está fantástico e o amarelinho dele é lindo!!

    Bjoka
    Rita

    ResponderEliminar
  6. Para ficar mesmo com o sabor do tempo do "coronel", só havia que fritar as batatas também em azeite (que nem é preciso escorrê-las, de tão secas que ficam).
    Quanto às de pacote, o meu total desacordo: é uma má opção, não fica bom e claro que não é a mesma coisa. Há pratos que não conjugam na forma rápida e este é um deles...

    ResponderEliminar
  7. Um bacalhau que tem tudo para agradar Laranjinha e olha-me só esse pratinho onde o colocaste...fiquei encantada,

    beijinhos e obrigada pela partilha bem apetitosa!!

    ResponderEliminar
  8. Eu adoro bacalhau à brás! Aprendi a fazer com a minha avó (o dela é excepcional!), e também fica assim amarelinho como o teu, porque usamos ovos caseiros.
    Um beijinho.

    ResponderEliminar
  9. Olá Laranjinha,
    Eu gosto muito de bacalhau, já provei muitas maneiras de confecciná-lo mas esta continua a ser a minha preferida.
    Ficou com um aspecto mesmo delicioso e caseirinho... uma maravilha com esses ovinhos caseiros, são bem melhores!
    Um beijinho e tem uma boa semana :)

    ResponderEliminar
  10. Esse prato tem muita saida aqui em casa, o pessoal é bem português
    Um beijinho

    ResponderEliminar
  11. Adoro o bacalhau à bras.
    Tentarei fazê-lo na minha casa.
    Estou a estudar português e gosto muito da cozinha portuguesa.

    ResponderEliminar
  12. Uma bela estória para um prato com muita história :) É um dos meus pratos de bacalhau favoritos!

    ResponderEliminar
  13. Que bonita historia laranjinha! Adorei a receita tb! beijos e boa semana

    ResponderEliminar
  14. Ai esse Coronel que me fez recuar no tempo e reviver mentalmente os meus passeios por Lisboa. :) Deu vontade de comer bacalhau à brás.

    ResponderEliminar
  15. Ana,
    muito obrigada. Tem-me dado imenso prazer escrever as memórias deste "Coronel"! :) Também gosto mais de usar bacalhau fresco, para além do sabor a textura também fica diferente.

    Ana Rita,
    muito obrigada.

    LPontes,
    tem razão. Em relação ao azeite, a Rosa rendeu-se a alguns hábitos dos dias de hoje. ;) A batata-palha de compra entrou nas nossas cozinhas para facilitar a vida, mas não tem nada a ver, não. Um bom bacalhau à brás tem que ser feito a preceito.

    Fê e Paula Mariana,
    muito obrigada.

    Ginja e Sofia,
    os ovos caseiros fazem toda a diferença, não é?

    Gisela,
    eu adoro bacalhau à brás, mas já algum tempo que não fazia. Mas é um prato associado à cidade de Lisboa, e tinha que fazer parte das memórias do nosso "Coronel".

    Anónimo,
    muito obrigada pela visita. Se tiveres alguma dúvida, não hesites em perguntar.

    Ameixinha,
    muito obrigada.

    Marmita,
    muito obrigada. Vamos ver como continua a história! Algumas das próximas receitas já estão feitas.

    Cozinha Tricolor,
    muito obrigada. O bacalhau à Brás faz parte da memória da cidade de Lisboa. O nosso "Coronel" tinha que se lembrar dele e das tascas de outrora.

    Um beijinho e votos de boa semana.

    ResponderEliminar
  16. Será que fica muito mau se usar um pacote de batatas fritas do supermercado?

    ResponderEliminar