quarta-feira, 6 de Junho de 2012

Do ouvido à boca, a nova carta do restaurante Feitoria

Foto da autoria de Paulo Barata

Espreitei a paisagem pelo envidraçado do restaurante Feitoria, premiado com uma estrela Michelin, com um copo de vinho rosé fresco na mão. Ao longe, o rio, de onde outrora partiam e chegavam naus cheias de especiarias vindas do outro lado do mundo, estava calmo e brilhava com tons de prata aos últimos raios de sol. Do alto do Padrão dos Descobrimentos, o Infante D. Henrique, indiferente a tudo o resto, acalenta no olhar de pedra, planear uma nova viagem. A imagem criada pelo jardim de relva, a lembrar-me o mar ondulado, ladeado de árvores, deu-me um enorme sentimento de tranquilidade. Inspirei fundo. Olhei a fachada branca do hotel e a vida da esplanada que se avista ao fundo. Quando dei por mim, a Primavera de Vivaldi terminava e começava o Verão, mote para a apresentação da nova carta do Feitoria no passado dia 24 de Maio de 2012.


Foto da autoria de João Andrés
Conduzida à minha mesa, sentei-me e finalmente abri a ementa do chef Cordeiro a degustar nessa noite e para a qual fui amavelmente convidada.

A mesa, elegante e bonita, insere-se no ambiente de requinte que é apanágio do Altis Belém Hotel & Spa, do qual faz parte. A carta, intitulada em jeito de partitura musical, Prova Anónima, Do Ouvido à Boca, despertou-me logo a curiosidade. E se o ouvido e os olhos já estavam encantados, o palato não esperava pela demora.

O jantar começou com um gaspacho servido com esferificação de azeitona verde, a fazer lembrar o Martini com azeitona do agente secreto britânico mais charmoso do mundo. De seguida, saboreámos foie com gelatina de Grandjó colheita tardia. Estou certa que James Bond haveria de gostar tanto como eu de saborear este amouse-bouche antes de partir para uma das suas perigosas e arriscadas missões.

Depois do palato aprumado, o ouvido também precisava de alimento. E foi ao som de A Mãe de Rodrigo Leão que saboreámos as entradas. Lagostins do mar com espargos brancos e verdes, syrah e pequenos torresmos de leitão, um prato com um cheiro tão bom e com a textura crocante dos espargos a fazer-se notar. De seguida provámos presunto de porco alentejano e queijo monte da vinha, beldroegas e pequenas folhas de beterraba. Um prato floral e colorido. Achei tão curioso o uso das beldroegas, um produto que nos últimos tempos tem vindo a ser valorizado e vê-lo ser servido ao nível da alta cozinha deixou-me satisfeita. O vinho escolhido foi Vale das Areias Sauvignon & Arinto 2011.

Fotos da autoria de João Andrés

Para acompanhar os pratos de peixe, o chef Cordeiro, escolheu Gente da Minha Terra cantada por Mariza. E foi com elementos da terra que abrimos os pratos de peixe. O chef Cordeiro preparou um robalo acompanhado com “cuscos” de lingueirão decorado com feijão verde. Os cuscos são feitos com trigo Barbela e depois passados pelas mãos, revelando-se uma tarefa árdua e, actualmente, em risco de se perder. Um prato com o sabor à terra de Trás-os-Montes. Bebemos com este prato um vinho Quinta do Monte d'Oiro Lybra Syrah 2008.

A seguir veio um dos meus pratos favoritos, monocromático de salmonete e carabineiro com morangos silvestres e beterrabas biológicas. O sabor de elementos de combinação aparentemente tão improvável, como os morangos e a beterraba, resultou num tom encantador e numa conjugação de sabores muito especial. O lado terra da beterraba com o aroma fresco e adocicado do morango, soube muito bem. Quase que posso dizer que os morangos nasceram para serem servidos com a beterraba. O vinho que acompanhou este prato foi Vale das Areias Rosé Touriga Nacional 2008. Estes pratos de peixe foram para mim a espinha dorsal da carta, com uma força, sabor e textura tão fortes como os arrepios que senti ao ouvir a voz de Mariza a cantar Gente da Minha Terra.

Fotos da autoria de João Andrés

Passando para os pratos de carne, mudámos também de música. A escolha recaiu sobre Né Ladeiras e a sua La Molinera do álbum Trás-os-Montes. O vinho Quinta do Monte d'Oiro Têmpora 2006 acompanhou o peito de pato com escorcioneira, cogumelos e areados de pistácio. A escorcioneira é uma planta de flor amarela e em que a raiz é a parte comestível. É também usada em doces. À semelhança do que aconteceu com as beldroegas, voltei a ficar agradavelmente surpreendida com o uso deste ingrediente, revelador da preocupação do chef Cordeiro pelos produtos e tradições portuguesas. Finalizámos os pratos de carne com uma degustação de porco bísaro, servido com um vinho Vale de Areias Touriga Nacional 2008.

Fotos da autoria de João Andrés

E ao som de António Variações, saboreámos um tentador pão-de-ló de abóbora e doce de ovos, creme de requeijão, alfazema e gelado de mel de urze. O pão de ló estava tão bom, que era capaz de conduzir ao inferno o mais beatífico dos santos. Por fim, saboreámos uma sobremesa em que a maçã tinha sido confeccionada de sete maneiras diferentes. Em gelado, mousse, bolo, frita, ao natural, em soufflé e em crumble. E como diz a música, O corpo é que paga. Mas enquanto o corpo paga, a alma congratula-se e pula de satisfação!

Fotos da autoria de João Andrés

E fazendo minhas as palavras proferidas nessa noite pelo gastrónomo José Bento dos Santos, Glória a quem sabe deslumbrar o paladar desta maneira.

Foto da autoria de Paulo Barata


[ Fotos fornecidas por Altis Belém Hotel & Spa ]

6 comentários:

  1. Bom dia, Isabel. Sou leitor assíduo do seu blog e estou indo no final de junho para Estoril e Cascais. Ficarei 3 dias e depois vou para o sul da França. Quais os restaurantes que vc indica em Estoril/Cascais? Obrigado. Grande abraço.

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    1. Acabei de lhe responder para o seu eMail.

      Bem vindo a Portugal!

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  2. Parece fenomenal tanto o espaço como a comida :) A visitar um dia :)

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  3. Boa noite, Isabel: gostei da sua conversa na Antena 1. Tem um bom som no seu rir.
    Cumprimentos

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  4. Uau Laranjinha, que inveja!
    Parabéns pelo sucesso e pelo trabalho que continua a surpreender.
    Beijinhos

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