Beldroegas? Sempre me lembro de ver as beldrogas como uma erva daninha que invadia as hortas. Mas há pouco tempo esta imagem mudou e alterou-se completamente depois de ler o livro de
Michael Pollan,
Em Defesa da Comida - Manifesto de um Consumidor.
Michael, no seu livro que referi e que já
li há já algum tempo, no capítulo III, propõe alguns conselhos práticos e preocupações que deveremos ter de modo a "
(...) separar, e a defender, a comida verdadeira da avalanche de produtos parecidos com comida que agora nos rodeiam e enganam, especialmente nos supermercados" (p.173). Comer comida verdadeira é algo que procuro ter sempre presente no meu dia-a-dia, apesar de achar que vivemos uma realidade alimentar diferente da dos Estados Unidos e à qual o livro se refere bastante. Apesar de há uns anos para cá as cadeias de
fast-food americanas terem vindo a consolidar a sua presença, o que é certo é que, melhor ou pior, ainda mantemos aspectos da nossa tradição gastronómica de traços mediterrânicos/atlânticos, com ingredientes como o azeite, vinho, ervas aromáticas e bastantes vegetais que acompanham pratos de peixe ou de carne e a sopa. Apesar de cada vez mais sermos bombardeados com produtos da indústria alimentar feitos para nos poupar tempo a preparar refeições, cheios de ingredientes/produtos estranhos e de açúcares (Michael Pollan aconselha-nos a lermos sempre os rótulos e evitar produtos que a nossa bisavó não reconhecesse como comida!), o que é certo é que em qualquer supermercado também existem bons produtos. O importante é saber escolher.
O autor aconselha que se "
coma sobretudo vegetais, especialmente folhas - uma dieta à base de vegetais traz-nos grandes benefícios, especialmente pela quantidade de fibra e de antioxidantes. Os antioxidantes combatem os radicais livres, cuja produção aumenta com o avançar da idade. «Mas os antioxidantes fazem ainda outra coisa: estimulam o fígado a produzir as enzimas necessárias para decompor o próprio antioxidante, as quais, uma vez produzidas, continuam a dissolver outros componentes, incluindo eventuais toxinas que se assemelham ao antioxidante. Desta forma, os antioxidantes ajudam a eliminar químicos perigosos, incluindo substâncias cancerígenas, pelo que quanto mais existirem na dieta, mais tipos de toxinas o organismo tem capacidade de destruir. Esta é uma das razões porque é importante comer o maior número possível de diferentes vegetais: todos contêm antioxidantes diferentes, ajudando assim o organismo a eliminar diferentes tipos de toxinas". Não nos surpreende que se diga que comer vegetais e frutas nos faz muito bem. Uma dieta rica em vegetais ajuda-nos a reduzir o risco de desenvolver os problemas de saúde que têm marcado, nas últimas décadas, a dieta ocidental.
Michael Pollan diz-nos que devemos comer alimentos silvestres sempre que pudermos. Quando li esta frase, fiquei a pensar: que tipo de produtos silvestres é que eu tenho acesso? Fala-nos das espécies animais, mas para este texto vou referir apenas a parte que se refere aos vegetais. "
Duas das plantas mais nutritivas do mundo são ervas - a anserina-branca e as beldroegas -, e algumas das dietas tradicionais mais saudáveis, como a mediterrânica, recorrem frequentemente a plantas silvestres. Os campos e as florestas estão repletos de plantas que contêm níveis mais elevados de diversos fitoquímicos do que as suas primas domesticadas. Porquê? Porque estas plantas têm de se defender das pragas e doenças sem qualquer ajuda nossa; e porque, historicamente, a nossa tendência foi seleccionar e cultivar plantas mais doces - muitos dos componentes defensivos que as plantas produzem são amargos. As plantas silvestres têm tendencialmente níveis mais altos de ácidos gordos ómega-3 do que as suas primas domesticadas, seleccionadas para durarem após a colheita".
Depois de ler o texto de Pollan comecei a valorizar ainda mais as beldroegas. O ano passado já tinha feito
uma salada, mas este ano procurei introduzi-las de forma mais sistemática nas refeições cá em casa. Com as beldroegas tenho tenho feito sopas e
saladas. Todas as beldroegas que nascem no meu quintal mudaram de estatuto. Até ao ano passado vi-as como ervas daninhas, agora são bem regadas, protegidas, para que cresçam verdinhas e viçosas.
Uma das
saladas com beldroegas que entretanto me chamou a atenção foi publicada no
Serious Eats e que tentei reproduzir com algumas alterações.
Ingredientes:
1 molhinho de beldroegas
1 pêssego
1 queijo fresco
1 cebola pequena picada
uma pitada de sal e pimenta a gosto
creme de vinagre balsâmico
1. Colocar num prato raminhos de beldroegas, o pêssego e o queijo cortado. Por cima, colocar a cebola picada.
2. Temperar com uma pitada de sal e pimenta a gosto. Regar com o creme de vinagre balsâmico.
A salada fica muito agradável, com contraste de sabores. As folhas de beldroegas frescas são ligeiramente crocantes. Que excelente praga esta que invadiu o meu quintal! ;)
Que outras plantas silvestres poderemos conseguir? Sugestões?